Até o final dos anos de 1950 a sociedade brasileira era, em sua grande maioria, uma sociedade rural. Calçado, como não poderia deixar de ser diferente, estava inserido nessa realidade. Não era uma região de grandes fazendeiros, mas de pequenos e médios produtores rurais, que se constituíam no motor do desenvolvimento econômico, social e cultural da nossa cidade.
Esses produtores precisavam de um espaço para a educação formal dos seus descendentes, não era mais possível que eles vivessem de heranças. As terras eram poucas para dividir com o grande número de filhos, comuns às famílias naquele tempo. Foi nesse contexto social que o Colégio de Calçado surgiu, para atender as demandas da elite rural calçadense.
A partir da sua fundação, nos anos de 1930, o Colégio passou a ser o grande responsável por modelar a história da sociedade calçadense. No início de sua jornada ele atendia apenas às elites do município e das redondezas. Era um Colégio privado, que para estudar os alunos necessitavam contribuir financeiramente para a manutenção da instituição. Com derrocada econômica do Dr. Pedro Vieira Filho, o seu fundador, o Colégio passou a ser gerido pelo estado, o que mudou um pouco o perfil econômico dos seus alunos, apesar de continuar sendo um colégio de elite (pelo menos até o início dos anos de 1970), pois para se matricular no curso ginasial era preciso fazer o exame de admissão, uma forma de selecionar os alunos com melhores condições sociais.
A sociedade calçadense, devido a sua origem escravocrata, sempre foi conservadora, e o Colégio reforçou esse víeis ideológico. As ideias positivistas, de que a ciência dava conta de tudo, era a fonte de seus ensinamentos (a exceção eram as influências religiosas, principalmente aquelas ligadas à igreja católica). Haja vista a pouca preocupação, atrás de suas sisudas paredes, com os problemas sociais que tanto afetavam e afetam a nossa cidade.
No final dos anos de 1960 e início de 1970, em plena ditadura militar, o Colégio de Calçado ganhou um sopro de modernidade, que balançou os seus alicerces ideológicos, com a presença de um casal de professores: Terezinha e João Batista Herkenhhof.
Dr. João Batista Herkenhhof veio ser o Juiz de Direito da comarca de São José do Calçado, e assumiu a cadeira de Educação Moral e Cívica no Colégio. A sua esposa, dona Terezinha, a de Português. Eles foram uma luz que iluminou a mente de muitos jovens alunos do meu tempo. Principalmente o Dr. João Batista, que, com aquele seu jeito elegante, mas muito simples, nos mostrou um mundo além da sala de aula, e, com um olhar social. Falava de sexo, de drogas, de questões sociais e combatia às ideias da ditadura; usava de uma sutiliza não chocava o conservadorismo institucional, característica presente só nos sábios. Eu mesmo tive nele um exemplo: me ajudou na profissão de professor e na minha formação de cidadão, com os seus ensinamentos.
Tenho comigo que o casal escreveu um dos parágrafos mais bonitos da história do nosso grandioso Colégio de Calçado, ajudando uma geração de jovens a encarar os desafios da vida, através de um olhar mais critico para os grandes problemas sociais que assolam, desde sempre, o nosso país.
E assim… O Colégio de Calçado vai ganhando vida com as nossas histórias.
Oscar Rezende
Vitória, agosto de 2019
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