O “casal vinte” do Colégio de Calçado

Dando continuidade a série de texto que estou escrevendo sobre o Colégio de Calçado, em que trago  um olhar muito particular das  almas (termo que  utilizo para passar a ideia de que permanecem vivas no tempo)   que  construíram e continuam a construir a história da  instituição,  que considero ser responsável pela identidade cultural da gente calçadense, falarei de um casal que ajudou escrever um pouco dessa história: o “casal vinte” do Colégio de Calçado.

Casal vinte foi uma expressão muito utilizada nos anos de 1970.  Extraída de um seriado americano que fez muito sucesso na televisão brasileira, Hart to Hart, que foi traduzido para o português, com o título de “casal vinte”. Essa expressão idiomática foi utilizada (não sei se continua até hoje) para identificar casais que transmitissem    cumplicidade e sintonia, nos aspectos profissionais e sociais de suas vidas. A expressão aguçou-me a lembrança de um casal que escreveu mais um dos parágrafos da bela história do nosso Colégio de Calçado: os professores Epaminondas e dona Ivanilde.

Quem teve a oportunidade de conviver com os dois, como professores, com certeza guarda ótimas lembranças. Cada um, ao seu jeito, deixou marcado na alma de uma geração de adolescentes   as lembranças de um tempo de esperanças, apesar dos gritos de dor que eram sufocados   nos porões da ditadura militar.

O professor Epaminondas era professor de biologia. Não esqueço da sua primeira aula, em que falava sobre as lentes do microscópio, que foram desenvolvidas por Anton Van Leeuwenhoek, comerciante e cientista holandês. Lembram-se desse nome? Ele não sai da minha cabeça até hoje! O professor Epaminondas estava sempre de bom humor, e não dava muita importância às peraltices e as colas dos alunos. Para alguns, passava a ideia de um professor que não impunha autoridade, pois o padrão de professor naquela época era ser carrancudo e bravo com os alunos, esse era o modelo que dava ibope para a juventude alienada a que pertencíamos. Mas, foi um professor além do seu tempo, a sua autoridade    se impunha pelo exemplo, um homem integro e humilde, incapaz de usar uma palavra que não fosse para elevar a autoestima de um aluno. Essa era a sabedoria que carregava, o que lhe conferia o entendimento sobre a profissão de professor.

Dona Ivanilde, que posteriormente veio a ser diretora do Colégio de Calçado (em outro momento farei um texto sobre ela nessa função), tinha características diferentes do seu marido, como professora. Mantinha um certo distanciamento dos alunos, sem, no entanto, se contaminar pelo autoritarismo. Mantinha, com a sua presença na sala de aula, um o ambiente em que o silêncio imperava. Não o silêncio que transmitia o medo, mas aquele motivado pela sua didática, que  despertava o interesse da maioria dos alunos. Era professora de desenho geométrico, uma disciplina fascinante. Aprendíamos a manusear a régua, o compasso, o transferidor e o esquadro, construindo figuras geométricas que, em certa medida, se aproximavam de obras de arte. Hoje a matéria não faz mais parte dos currículos escolares do ensino fundamental. Os tempos são outros. Os softwares e a realidade que nos rodeiam são os responsáveis por conduzir os alunos no mundo do desenho geométrico.

Com certeza, muitos dos que tiveram a oportunidade de conviver com o casal de professores, devem guardar na memória deliciosas histórias para contar sobre eles. Ao trazer à luz as lembranças dos queridos professores é a forma que tenho de registrar  um pouco da vida do nosso do Colégio de Calçado.

Oscar Rezende

Vitória, agosto de 2019

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