O nome Colégio de Calçado não é o oficial e nem aquele que está gravado na fachada principal da instituição que faz parte da história de São José do Calçado, é um nome literário, que utilizo para cutucar as lembranças de gerações que tem parte da sua história de vida entrelaçada com o colégio.
O tempo da minha adolescência, quando lá estudei, foi de transição de um ensino em que o protagonismo estava com o professor, o aluno era uma figura passiva, obediente e a análise crítica não existia. Para um outro tempo, em que os alunos conquistaram postura diferente: foram influenciados pelas revoltas estudantis que ocorreram na França em 1968 e pelo movimento hippie que contestava o conservadorismo e o autoritarismo.
Viver essa transição parece ter deixado suas marcas, aprendemos a ser obedientes à autoridade. Alguns de nós ainda acredita que o ensino daquela época era melhor, pois havia a disciplina e respeito aos professores, os detentores do saber e da verdade (escuto isso constantemente). Não estou contestando o respeito, pois esse é um dos princípios éticos do ser humano, mas, nas minhas andanças pela educação (são mais de 43 anos) não tenho dúvidas de que hoje os alunos são mais ativos e contestadores, não aceitam que lhes sejam “enfiado pela goela abaixo”, alguns procedimentos científicos e fatos históricos sem uma devida explicação que esteja em consonância com a realidade em que vivem.
Até meados dos anos de 1960, por trás dos muros cinzas do Colégio de Calçado, a ordem e a disciplina, eram imperativos, quem não se enquadrasse nesse modelo corria o risco de ser considerado “mal elemento”, um título que alguns dos calçadenses profissionalmente realizados carregam em seus currículos. A mudança para um novo paradigma começou com a direção de Dona Ivanilde, que abriu as portas do colégio para receber os jovens calçadenses. Os banhos de piscina, as festas juninas e os jogos de vôlei nos finais de tarde transformaram o colégio em ponto de encontro da juventude calçadense, principalmente nos períodos de férias, em que a cidade quase nada oferecia de diversão aos jovens.
Os efeitos colaterais foram muitos, mas deliciosos. Beijos, amassos, namoros e decepções amorosas corriam a solta nas dependências do colégio. Que para o conservadorismo arcaico da cidade passou a ser a nossa “Sodoma e Gomorra”.
Acredito que esse período histórico foi o mais rico do nosso colégio, deu voz a uma juventude que teve a missão de desconstruir a ordem estabelecida, em que a obediência sem contestações às regras sociais sufocavam os adolescentes das gerações anteriores.
Oscar Rezende
Vitória, setembro de 2019
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