O tempo e a tecnologia são cruciais na vida do homem. Ainda que a tecnologia não esteja relacionada com a finitude física, os tempos atuais são de muita apreensão, para o capital (pelo menos para o setor industrial) e para o trabalho. O capitalismo que produz as riquezas e as distribuí, porcamente, com a sociedade está em crise. Foi substituído por um “capitalismo” que se afasta, cada vez mais, das relações tradicionais entre capital e trabalho. O bem que ele produz, prioritariamente, é virtual, são papeis que estão em um mundo digital. Eles trazem novas riquezas para poucos, e, principalmente, muita pobreza para muitos. É nesse novo contexto que vivem os dois tipos de homens que vou falar sobre eles: o analógico e o digital.
Passei algum tempo no limbo, um tempo vazio de crianças: entre a faze adulta dos filhos e a chegada da primeira neta. Nesse tempo perdi o contato mais próximo com as crianças e fiquei defasado em relação à algumas questões da infância. O que me chama atenção hoje são os movimentos da minha neta de cinco anos, observo que ela tem intimidade com a tecnologia e sintonia fina com as mãos, afinal ela pertence ao mundo digital. O mundo que exige toques sensíveis, uma nova lógica e movimentos precisos para acessá-lo.
Pesquisas nas áreas da psicologia, sociologia, educação e informática, estudam essa nova movimentação corporal e a suas relações com a forma de raciocinar e de aprender do homem. Tenho comigo que a lógica do raciocínio humano de Aristóteles, base para diversos estudos da cognição, necessita de uma atualização, pelo menos naquilo que se referem ao armazenamento de informações na memória e as atividades repetitivas. Hoje não nos preocupamos em fazer contas manualmente ou em decorar números de telefone, eles foram delegados à inteligência artificial.
Num tempo pretérito o homem era analógico (não tem sentido falarmos no homem pré-analógico, pois ele já não está entre nós), os seus movimentos para relacionar com a tecnologia assemelhavam-se aos das ferramentas de trabalhos manuais: para trocar o canal de uma televisão ou usar um telefone, faziam-se movimentos semelhantes aos de uma chave de fenda, apertando ou afrouxando um parafuso.
Trago então uma questão: e nós, os homens analógicos, como ficamos nesses novos tempos? Tem uma resposta clássica que começa assim: no meu tempo… Quando escuto essa resposta já sei que vem aí uma negação da realidade, que se traduz numa indisposição para colocar-se no mundo atual. Tenho exemplos de pessoas próximas que negam essa realidade. Para alguns, as dificuldades em inserir-se no mundo digital ficam cada dia mais evidentes, como a de não entender a lógica de funcionamento de uma televisão, cujo acesso operacional se dá por um controle remoto. Outra reposta que também escuto, é uma que não nega os novos tempos, mas, de soberba em relação às novas formas de se comunicar com o mundo. Não aceitam as redes sociais, com alegações dos tipos: um mundo menor, fútil e cheio de besteiróis. Pode ser, mas é esse o tempo que vivemos. Daí, só me resta uma resposta para a questão que fiz anteriormente:
—Digitalize-se homem analógico, ou você não terá companhias, e a solidão que aliena e exclui vai te pegar mais à frente.
Oscar Rezende
Vitória, setembro de 2019
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