Praga de sogra já é meio caminho para o inferno. Imaginem praga de mãe! Não há folha de arruda, dente de alho, promessa, bater três vezes na mesa, e mais um montão de simpatias que dê jeito, se pega você está frito.
Pois é! Foi isso que aconteceu comigo: uma praga que me transformou em uma pessoa fissurada por ler e escrever, sou compulsivo. Tudo começou no começo, quando minha mãe enchia meu saco para ler e estudar português, uma disciplina que fui péssimo aluno, não sabia nada e contínuo não sabendo, principalmente ortografia. Precisou surgir o Word, com seu corretor ortográfico, para me salvar. Ainda bem que sou professor de matemática, em que os símbolos substituem as palavras. Quando precisava escrever no quadro uma palavra, e não sabia se era com “ç”, “s”, “ss” “z” e se tinha acento ou não, usava a capacidade de enganar aluno, uma das táticas da profissão de professor. Escrevia com uma letra inelegível, obrigando o aluno a perguntar o que estava escrito. A resposta era simples: ditava a palavra. O problema era quando o danado do aluno também não sabia escrever a palavra, e perguntava. Isso é uma outra história!
Quanto as leituras, eu não queria saber de nenhuma indicação de mamãe: José de Alencar, Machado de Assis e tantos outros escritores da língua portuguesa. O meu negócio eram, gibis, fotonovelas, Cassandra Rios e Adelaide Carraro, que foram duas escritoras marginais, perseguidas pela ditadura, e que escreviam deliciosos livros com histórias recheados de sexo e suspense. Na época essas autoras venderam mais livros do que alguns autores consagrados da língua portuguesa, como, por exemplo, Jorge Amado.
Voltando ao tema: como foi essa história de praga de minha mãe?
Essa resposta só eu sei, ela nunca soube que me rogou essa praga, e pela minha fé religiosa, que é nenhuma, ela não vai saber dessa história. Desde a infância que me rebelava contra a mania da mamãe, de obrigar-me a ler e estudar as diversas matérias, achava aquilo um exibicionismo desnecessário. Não gostava da possibilidade de ser seu aluno, mas aconteceu na alfabetização e no Colégio de Calçado, quando fui seu aluno, mas só por um curto período, no primeiro ano científico, logo depois ela foi substituída pela professora Terezinha Herkenhoff, um alivio para mim.
Quando se aposentou, logo ficou viúva. Aprendeu a preencher a sua vida com a leitura e a escrita, escreveu poemas, crônicas e memórias. Foi uma das fundadoras da Academia Calçadense de Letras, ocupando a cadeira de número um. Na sua solidão de escritora, ela tinha a necessidade de dividir os seus escritos, e, às vezes, me procurava para falar ou ler alguma coisa que havia escrito. Eu, sem querer feri-la, sempre arranjava uma desculpa e mudava de assunto. Tenho certeza que ela percebia, mas não demonstrava nenhum aborrecimento. Hoje eu a entendendo perfeitamente, e, se soubesse o que sei atualmente, teria aproveitado da sua sabedoria, teríamos conversado muito sobre a sua arte com as palavras. Mas a vida é assim: algumas vezes nos proporciona desencontros.
O resultado da praga que me rogou? Foi que estou ficando igual a ela, e já sofro dos dos mesmos sintomas.
Oscar Rezende
Vitória, setembro de 2019
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