O fantasma do Acamari

Em se tratando de fantasmas a audição dá de dez nos outros sentidos: ver um fantasma é muito difícil; tocá-lo, impossível. Fantasma não tem gosto, ninguém come, e, sentir o seu cheiro não é comum, a não ser o mais terrível dos fantasmas, aquele que cheira enxofre. Mas isso é uma outra história. No entanto, escutar barulho de fantasma a imaginação humana é fértil, eu mesmo já escutei a sua presença.

Acamari é um bairro de casas em Viçosa-MG, situado em uma região quase rural. As casas ficam espalhadas pelas ruas do bairro, sem a presença de muros à frente. O estilo é semelhante à alguns bairros de casas que aparecem nos cenários de filmes americanos.

Eu chegava ao final da tarde da UFV (Universidade Federal de Viçosa), onde fazia o meu doutorado, tomava um   banho e me sentava, por volta das dezenove horas, para um bom papo na sala de TV,  antes de escrever o relatório diário do experimento que fazia. Estava sempre acompanhado do cunhado Luiz Raggi e da irmã Maria das Dores (Dodora para os irmãos mais novos), os donos da casa.

Num dia de inverno, estávamos imersos em um assunto, quando, de repente, a campainha da porta principal tocou.  Da primeira vez Luiz foi atender:

— Não tem ninguém, disse ele.

Não nos importamos. Apenas especulamos se foi uma criança brincando, que tocou a campainha e se escondeu. Uma hipótese pouco provável, pois o Acamari era  um bairro de poucas  crianças e a casa ficava numa posição que permitia   uma visão geral do seu entorno.   Para contrariar, ainda mais, a nossa hipótese, fazia um frio de lascar, e nenhum pai iria deixar uma criança brincando na rua. Quem conhece Viçosa sabe como é difícil encarar uma noite fria.

Só ficamos com a pulga atrás da orelha quando aconteceu pela segunda vez. Eu estava passando pela sala principal quando a campainha tocou. Abri a porta quase de imediato, e para minha surpresa,  não havia ninguém. A terceira vez foi pior ainda… A cachorrinha da Dodora, que dormia tranquilamente ao nosso lado, latiu segundos antes. Aí meus amigos veio o medo, pois como dizia a mamãe: quem tem cu tem medo.

O fenômeno se repetiu por várias vezes, tratávamos aquilo com bom humor, fingindo que não ligávamos  para o mistério, mas, veladamente, ninguém gostava de ficar sozinho em casa durante o período de tempo escolhido pela  campainha para  dar  o seu   curto elétrico, como foi a explicação técnica, sem nenhuma convicção,  dada por  Luiz.

O fenômeno se repetiu por diversas vezes, até que não mais escutamos. Não sei se acostumamos com o toque da campainha ou se o fantasma resolveu  brincar em outro “Playground”.  

Oscar Rezende

Vitória, setembro de 2019

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