Jardim da Penha é um bairro da capital capixaba que tem como uma de suas características ser a morada de pessoas idosas, principalmente aposentados da antiga Vale do Rio Doce, CST e funcionários públicos. Distribuídos perto dos pontos de confluência das ruas do bairro, as três praças, estão vários botecos, que no período da manhã são pontos de encontro de homens idosos, que vão até lá para se encherem de cerveja, cachaça e conversa. Sem querer fazer juízo de valores, aqueles senhores parecem estar ali para fugir da solidão que os acompanha no inverno da vida.
Hoje, tive a curiosidade de sentar-me num desses botecos para escutar as conversas que rolam. Eles conversavam, com explicações em tons quase acadêmicos, sobre uma realidade que já não existe mais, ou mesmo que nunca existiu, falando de política, futebol e sexo, inflando as suas qualidades pessoais como se fizessem parte de um jogo para ver quem fala mais de si mesmo.
Essa escuta indiscreta das conversas alheias me fez refletir sobre a solidão, que talvez seja um dos sentimentos que mais inquietação traz ao homem. Geralmente ela está associada ao tempo, é como se fosse uma doença que fatalmente infectará àqueles que se aproximarem da morte, num processo natural de envelhecimento. À medida que o tempo vai salgando a vida, a solidão torna-se fiel companheira, principalmente se o corpo não mais responder aos desejos mais básicos, e as interações com o mundo exterior não forem mais interessantes para aqueles que estão ao nosso entorno.
Essa é uma realidade que não temos como fugir dela, a não ser que a morte nos leve antes. Mas, a esperança para a maioria dos homens é viver a vida na sua completude, até onde as suas energias não puderem mais sustentá-la.
Tenho comigo que o pior da solidão não é estar sozinho, e sim não ter se encontrado com você mesmo durante a vida. O homem que não se conhece, e não sabe viver em sua companhia, se alimentando das lembranças e daquilo que sua história de vida acumulou para lhe dar energia, talvez não consiga caminhar em sintonia com a natureza, para entender que o fim está na luz que ilumina a sua estrada, e que essa luz deve ficar ainda mais intensa à medida que nos aproximamos dela.
Sem qualquer intenção moralista, até porque tomar cerveja com amigos é uma das coisas que me dá muita satisfação, tenho a impressão que, no caso daqueles velhos senhores dos botecos de Jardim da Penha, eles ainda não se encontraram com eles mesmos, e ao tomarem a cerveja e a cachaça acompanhadas daquelas conversas desconexas da realidade, estão, de fato, comprando um pouco mais de solidão.
Oscar Rezende
Vitória, outubro de 2019
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