Num desses finais de tarde de verão, de muita chuva em Manguinhos, ela apareceu. Caminhava pela calçada, toda encharcada de água de chuva, num lamento agoniante de miado de gata miúda. Provavelmente com uma semana de vida! Deve ter nascido de uma mãe vadia, em algum canto de uma casa velha, cheia de mofo e de aparelhos eletrodomésticos velhos e enferrujados, que são alugadas para mineiros, pouco exigentes com as acomodações, desde que estejam à beira da praia.
Barbara, minha filha, quando viu a cena entrou em estado de compaixão; com muita argumentação, lamentação e choro, convenceu à mãe aceitar àquela oferenda, que dizia ser de Iemanjá. E lá vai a Molly para nossa casa. Esse nome surgiu após exercitarmos, por algum tempo, a falta de criatividade, e no feminino. Uma semana depois, o veterinário deu o veredito, era macho. A Molly, virou o Molly! E lá se vão mais de quinze anos.
No início parecia não ter se importado em ter o sexo colocado em dúvida e foi crescendo saudável, o seu pelo branco e seus olhos azuis foram lhe dando uma beleza ímpar. O gênio infantil parecia ser normal, apenas com alguns excessos, ao brincar de entrar em sacolas e morder as mãos da gente, mas nada que pudesse prever um futuro tão genioso!
Os problemas começaram na adolescência. Quando as vadias da rua lhe ofereceram o paraíso do sexo, Molly endoidou! Se eu não resolvesse soltá-lo teria se lançado do alto da varanda, com consequências imprevisíveis, para seguir os seus incontroláveis desejos. Voltou dois dias depois, todo machucado, mas com ar de felicidade; que logo se transformou em rabugice, após a castração.
Odeia gente que não é da casa e crianças. Minha neta Manuela, quando é convidada para ir à casa dos avós, pergunta e responde ao mesmo tempo:
— Vamos na casa do Molly? Eu já sei pai, não pode brincar como Molly.
Molly, a jaguatirica, como foi apelidado carinhosamente pela veterinária, cunhada da minha filha, que se atreveu a lhe fazer um exame de sangue, só possível após muitas mordidas, arranhões e anestesia geral, continua com sua vidinha de gato velho e rabugento, mas “boa gente”. Me entendo bem com ele! Aliás, desde criança que tenho uma boa relação com os animais, mantendo a distância necessária entre as espécies. Assisto os homens de hoje tentando não mais fazer essa diferença; tenho uma bronca danada quando tentam me atribuir paternidade à animais, acho isso um desrespeito. Mas, talvez, a carência afetiva e a intolerância dentro da espécie humana expliquem o motivo.
Com a minha aposentadoria estamos os dois velhos dentro de casa, convivendo, harmoniosamente, com as nossas chatices. Quando estou escrevendo, ele se senta ao lado do teclado, e qualquer movimento que faço morde as minhas mãos. Pelas nossas conversas telepáticas sei que está querendo chamar atenção e brincar, mas é uma brincadeira muito chata, que não me deixa sossegado. Logo dou um jeito de expulsá-lo dali. Deito-me para ler e ele vem se acomodar no meio das minhas pernas. Para fazer qualquer movimento preciso de permissão, se não: lá vem mordida de novo!
Agora, deu para me acompanhar por onde ando dentro de casa, se enrolando em minhas pernas e miando, pedindo não sei o que. E assim vamos os dois, vivendo a nossa saga de espécies diferentes, mas que se harmonizam, com respeito e carinho, como deve ser…
Oscar Rezende
Vitória, outubro de 2019
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