O que teria sido de mim…

Viver a infância na roça e depois sentir os ares da cidade é privilégio para poucos, pois a população brasileira vive hoje, na grande maioria, nos centros urbanos. Andar  no asfalto, sentindo o cheiro da fumaça, e caminhar entre prédios, sem escutar o silêncio, só conhecendo a roça no filme Jeca Tatu, estrelado pelo magistral Mazzaropi, ou em finais de semana, hospedando-se nos confortáveis hotéis-fazenda, é não vivenciar muitos sentimentos que transbordam a alma da gente.

Fico pensando o que teria sido de mim se não tivesse:

pisado em merda mole de galinha, que, quando agarrava entre os dedos, dava um trabalho danado para remover, e fedia de dar gosto;

sentido o cheiro da terra molhada após os primeiros pingos de chuva;

sentido a coceira gostosa de um bicho-de-pé debaixo do dedão, que, quando virava batata, carecia de técnica especial para tirar;

 tomado um galope de vaca ou de cachorro bravo, do qual, para sair ileso, era necessário encontrar uma porteira próxima, para atravessar ou subir, e o mais rápido possível;

ficado entupido de tanto chupar jabuticaba ou comer goiaba, e depois ter de se sentar em um penico de água quente para relaxar as pregas (técnica da mamãe);

jogado bola de bexiga de porco em campinhos irregulares, com muita vassoura e pouca grama, que, às vezes, nos feria entre os dedos do pé;

tomado banho de rio, pescado com anzol, armado de lamparina para encontrar as traíras encostadas na beira do rio e lhes dar pauladas, ou de peneira nos córregos;

assistido às dores da elefantíase, lepra e barriga d’água, que tanto podia ser de verme ou de coisa ruim, como paralisia, sarampo, catapora, tuberculose, loucura e tantas outras doenças agravadas pelo subdesenvolvimento;

montado a cavalo em pelo e adquirido belas assaduras, que deixavam as pernas e o fiofó rosa e ardidos;

encontrado com o Saci-Pererê, a Mula sem Cabeça, o Curupira e o mais terrível deles, o Bicho Ruim, nas histórias contadas em rodas de conversa, aquecidas por um velho e bom fogão a lenha, à luz da lamparina.

Não sei como estaria a minha alma se não tivesse vivido tudo isso. Talvez não estivesse aqui escrevendo este texto! Só aqueles que viveram essa experiência serão capazes de entender o que teria sido de mim.

Oscar Rezende

Vitória, outubro de 2019

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