A cidade trouxe-me maravilhas: o conhecimento, a maturidade, os filhos… e mais um montão de coisas que são caras à minha vida. No entanto, roubou-me a inocência, e no que ela tinha de mais sagrado, o céu. Quando olho para cima só vejo janelas, antenas, aviões, helicópteros e pássaros estranhos, que parecem não conhecer uma árvore. Voam, de um lado para o outro, procurando nos prédios cantinhos para construírem suas moradas. Até a majestosa lua, que para se exibir, dança entre as frestas deixadas pelos prédios, não consigo mais apreciar.
Dos céus ficaram as lembranças: o céu de espumas, que a todo momento nos surpreendia com um cavalo, uma mão, um país, um pássaro, e tantas outras figuras que ele desenhava para nos divertir; o céu azul, que de tão azul a todos encantava, e nada se movia por respeito, nem mesmo o vento ousava perturbar a sua paz; e o céu zangado (do qual eu tinha muito medo), com suas nuvens carregadas soltando raios para todos os lados, acompanhados por um barulho ensurdecedor, anunciando que era dia de faxina, o administrador arrastava os moveis de um lado para o outro, lavando a sujeira. E olhem que essa história tem lógica! Após a confusão escorria um montão de água lá de cima.
Mas, era à noite que o céu apresentava todo o seu esplendor. A solitária estrela Dalva rompia os últimos raios de sol, para mostrar a sua beleza e anunciar o espetáculo que estava por vir. Se olhássemos para o Sul, na direção de Bom Jesus, era possível apreciar o majestoso Cruzeiro do Sul, uma cruz salpicada de luzes brilhantes que orienta os navegantes da vida.
O que eu mais gostava nas noites celestes era das três Marias, sempre visíveis, alinhadas e brilhantes, para onde olhássemos no céu. A primeira e a segunda, mais próximas e a terceira mais afastada. Essas estrelas são guias do meu tempo. Se olho para o céu lá estão elas…. Se olho para a terra, também: Maria das Graças, Maria das Dores e Maria Carlota, a primeira e a segunda, mais velhas e a terceira mais nova, alinhadas como às do céu, cada uma refletindo a sua luz e ajudando a iluminar o meu caminho.
Oscar Rezende
Vitória, novembro de 2019
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