Vou confessar para vocês: sempre fui um folião desanimado, mesmo nos tempos áureos do carnaval em Calçado. Quando não pintava um amor de ocasião, eu fazia um esforço danado para manter a animação nos quatro dias de folia (não pegava bem um jovem da minha idade não gostar de carnaval). Quando a madrugada de quarta-feira chegava, eu me sentava num dos bancos da praça, quase sempre acompanhado da minha querida prima e amiga Ana Medina. Juntos contávamos o tempo que faltava para a banda do Antônio de Sá Viana dar a gloriosa volta na praça, acompanhada dos foliões, e anunciar o fim da festa. No entanto, durante algum tempo, para ser exato cinco anos, mitiguei essa desanimação. O responsável por tal façanha foi o Bloco da Solidão, que de solidão, só tinha o nome.
O Bloco da Solidão foi um marco no carnaval calçadense. Ele fez uma revolução nas nossas festas de Momo. Nasceu da inspiração das três meninas do Rio, Maria da Glória, Maria Francisca e Maria de Fátima, e mais alguns outros calçadenses.
O nome do bloco foi inspirado na marcha de carnaval Bloco da Solidão, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim. O primeiro desfile foi improvisado: o tema era o da música que deu nome ao bloco, e a fantasia bem mixuruca: short vermelho e uma camiseta, também vermelha, com uma estrela preta no peito. A recepção do público foi tão boa que animou os componentes do bloco. A partir de então, uma estrutura foi criada durante o ano para preparar os novos desfiles. As meninas do Rio, ficaram responsáveis por criar os enredos, as fantasias e escreverem as músicas, inclusive com partituras, que eram enviadas para a banda do Sr. Antônio de Sá Viana, para ser tocada na entrada do bloco no Montanha Clube; a turma de Calçado ficou responsável por mobilizar as costureiras, para a confecções das fantasias, e arrecadar o dinheiro para as despesas.
Durante cinco anos o Bloco da Solidão animou o carnaval calçadense, inclusive incentivando o surgimento de outros blocos, que vieram a concorrer com ele. Uma rixa saudável surgiu entre as agremiações. E até com torcidas! Lembro-me de vários familiares dos participantes dos blocos que apareciam no domingo, noite do desfile, no Montanha Clube para torcerem para o bloco de sua preferência.
Após o primeiro desfile, o Bloco da Solidão animou o carnaval calçadense com mais quatro enredos: Palhaço, mito que não morre, Alegoria ao Pequeno Príncipe, Nascimento e Gloria de São José do Calçado e Cinco anos de solidão. Só em um dos enredos ele não foi vencedor: Palhaço, mito que não morreu. Na minha opinião um resultado injusto, pois as fantasias eram lindas e a música original: Acho que o Júri não levou em consideração a originalidade, e deu a vitória a um outro bloco, Chuva, Suor e Cerveja, mais animado, mas sem a mesma originalidade, pois a música era um frevo conhecido. Paciência!
O enredo marcante do Bloco da Solidão foi, sem dúvidas, Nascimento e Gloria de São José do Calçado, em que a história da criação do nosso município foi popularizada na genial letra e música de Maria da Glória (Goia):
Nascimento e Gloria de São José do Calçado
(Goia)
Alterosa, alterosa.
Calçado eu sou pra você
Alterosa, alterosa,
Um pedaço de sua terra num ser
Calçado o seu nome, a sua história,
Sua glória toda eu vou contar
Tanta gente que lutou, que sofreu,
Tanta gente que morreu pra você nascer
Hoje cantando,
Hoje sambando,
Quero enaltecer, Calçado,
Quem lhe fez
Nascia da coragem de dois homens
Que sozinhos começaram a construir
Foi surgindo seu pequeno povoado
Sob olhar, sob as graças de São José
Marciano Lúcio,
Caboclo Valério,
Exemplos de coragem e de fé
Muitos anos depois
Presidente Marcondes
Fez a independência
Abrindo caminho de glória e de paz
“Montanhas e Flores”
Calçado surgiu
A imagem que o passado refletiu
Esse belo samba foi um marco do nosso carnaval, e não poderia ficar adormecido em uma gaveta de papéis velhos.
Após a despedida do Bloco da Solidão do Montanha Cube, outros blocos surgiram, mas nenhum deles com a mesma ousadia e originalidade! Assim, o nosso carnaval foi, aos poucos, perdendo o seu brilho, até que uma tragédia se abateu sobre a cidade, o cruel assassinato de jovem Cezar, e o nosso carnaval no Montanha Clube sucumbiu.
Fica aqui o meu agradecimento ao Bloco da Solidão, e em especial às meninas do Rio, que durante cinco anos animaram o meu desanimado carnaval.
Oscar Rezende
Vitória, dezembro de 2019
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