A regra básica da convivência em república, quase nunca respeitada, era: não acender a luz do quarto quando alguém estiver dormindo. Roncar, peidar e ter chulé era permitido, mas com parcimônia. Já vi gente ser rejeita por ronco e chulé, exagerados. Por peidar, nunca! Apenas uma repreensão quando era fedorento: ter a mãe xingada, coisa pouca!
Num quarto de república, normalmente de 12 metros quadrados, vivem quatro: um beliche de cada lada da parede, quatro mesinhas com cadeiras, para os estudos, e um guarda-roupas, com um poster do filme 1000 Séculos Antes de Cristo, com Raquel Welch seminua, pregado na porta de um metro de largura. Tínhamos que nos virar nesse espaço democrático.
Eu nunca gostei de dormir na parte de cima do beliche, não confiava no meu equilíbrio, principalmente após uma noite regada a “cu de burro”. Abrindo um parêntese: Sabem o que é “cu de burro”? Uma bebida fina: um copo americano cheio de cachaça, de péssima qualidade, acompanhado de meio limão com muito açúcar por cima. Toma-se “o veneno” de uma golada só, e chupa o limão com açúcar. Não demora nem cinco minutos para chegar na cabeça, e com vantagens: custa pouco e não dá bafo! Era a bebida ideal nos finais de semana da gelada Viçosa-MG. Esquentava o frio! Mas, a ressaca era de lascar.
Os estudantes “Nutella”, aqueles que moravam na casa dos pais, como os nativos de Viçosa, não sabiam como era doce a vida em uma república. Morar em uma república, recém-saído da adolescência, nos ensina muito da vida, é um ambiente democrático, em que cada um cuida de si, sem a interferência dos pais para dizer o que é certo ou errado. Ali se convivi com amigos, em geral sinceros, para criticar algo que não concordam, mas sem serem autoritários. Se você não quiser entender, “que se foda”, e assume as consequências, pois ninguém vai te paparicar.
Quando estudei na Universidade, em Viçosa-MG, uma das experiências mais ricas da minha vida foi viver em república durante seis anos, dos dezessete aos vinte e três, quando me formei. Fiz muitos amigos, e tive alguns desafetos também, pois com alguns o santo da gente não cruzava, como se diz no popular. Aquela convivência me ensinou a respeitar o espaço do outro, a ter paciência, a ser alegre e, principalmente, me fez crescer como ser humano.
Foram muitas as amizades ali construídas: me ensinaram a viver, ter responsabilidade, e me ofereceram um ombro para chorar as decepções da jovem vida. O que não me ensinaram foi ser bom de bola. Nas peladas pelos gramados da UFV, sempre participava dos times das repúblicas em que morei, mas jogava só para fazer número, pois minha contribuição era sempre muito pífia.
As repúblicas de estudante são cheias de vida, de sonhos e de algumas frustrações também. Quem viveu essa vida sabe do que estou falando… A doce vida de república.
Ah! Já estava me esquecendo. Uma outra bebida muita apreciada por nós, estudantes, no frio inverno de Viçosa, era vinho sangue de boi, e quente! Uma maravilha para quem vivia na merda!
Oscar Rezende
Vitória, dezembro de 2019
Deixe um comentário