O desastre

O Brasil nos anos de 1950 teve um desenvolvimento invejável, talvez a década de maior modernização do país, que soube aproveitar os avanços sociais e econômicos do mundo pós-guerra. A década se  iniciou com  o governo Getúlio Vargas, que criou a  indústria do aço,  a   do petróleo e abriu  caminho para  as pesquisas cientificas no país, com o surgimento  dos  órgãos de fomento;  e terminou  com o governo JK que deu o  toque de modernidade:  cultural,  com o cinema novo, o teatro e a  bossa nova; e industrial,  com a chegada  das   montadoras de veículos, principalmente a Volkswagen. Dois veículos da montadora alemã  passaram a fazer parte da nossa paisagem urbana. O fusca e a Kombi, carros que sobreviveram até recentemente.

A fazenda do meu tio Carlowe, lá em Rosal, era um dos lugares  que eu mais gostava de passear. Além da delicadeza  do tio no trato com os sobrinhos, e das broncas  carinhosas  da sua esposa, tia Adair, com as nossas traquinagens, tudo lá cheirava a modernidade. Tinha telefone, rádio, e acredito que até televisão, se minha memória não me traiu. O  que eu  mais admirava na fazenda dos tios  eram:  as vacas leiteiras,  de dar inveja a muitos proprietários, pois  produziam   mais de trezentos litros de leite, por dia; e a criação de porcos, com os famosos porcos duroc, que mais pareciam um bezerro, de tão grandes que eram!

Os amigos devem estar se questionando: o que esses dois parágrafos têm a ver um com o outro?  Será que autor não errou e misturou duas crônicas?  Não meus amigos, pois esses dois cenários estão entrelaçados por um desastre.

Era aniversário de quinze anos da minha prima Maria Elizabeth, filha mais velha dos tios Carlowe e Adair. Todos da família estavam mobilizados para a grande festa,  que iria acontecer na fazenda de Rosal. Lembro-me que lá em casa todos nós ganhamos roupas novas. A minha era um calça curta de linho azul marinho, com suspensório novinho, uma camisa branca e um sapato preto, com meias brancas até à metade da canela. Convenhamos! Uma roupinha “bem fresca”, mas devia ser moda à época. O penteado era   estilo vassourinha, cortado pelo Joãozinho (João Barroso), primo de meu pai e barbeiro em Calçado. A máquina que ele usava dava cada mordida no coco da gente! Não sei se era barbeiragem do barbeiro ou se a máquina era mal amolada? Mas doía para caramba.

Saímos em duas famílias  da Fazenda Velha, a do meu tio Joãozinho e a nossa,  em dois carros: o  fordeco do tio Joãozinho, irmão de mamãe, e uma  Kombi, que não me  lembro de quem, mas acho que era de um pessoal do Rio, parentes do marido da Maria Adélia, filha mais velha  do tio Joãozinho.

A festa foi de arromba! Tinha muita comida, doces, refrigerantes e, acredito que cerveja também, pois aqueles homens que lá estavam não iriam se contentar só com refrigerantes. No meu caso, comi muito e bebi muito refrigerante. Depois fui brincar numa rede na varanda, com os primos João Bosco e Boni. Balança daqui balança de lá, e cada vez mais alto. De repente veio a tonteira! E o banquete foi devolvido. Sujei a rede e  a roupa novinha. Além da bronca de mamãe, tive que ser lavado e engomado novamente.  O maior mico!

No final da tarde chegou a hora de virmos embora. Não sei o que aconteceu, mas  acredito que algum motorista tenha enfiado o “pé na jaca” e não pode dirigir. Coube ao meu pai vir dirigindo fordeco do Tio Joãozinho. 

Quem conheceu  Rosal naquela época,  deve se lembrar da famosa Cachoeira da Fumaça, no rio Itabapoana, e da estradinha de chão que margeava a famosa queda d’água, com perambeiras que assustavam a imaginação da criançada.

 Na Kombi, além dos adultos, vínhamos eu, Boni e Rita, sentados no último banco. No fordeco, de criança acho que só Carlota.  Pois bem! Chegando na descida da curva que contornava a assustadora Cachoeira da Fumaça, não sei o que aconteceu:  o fordeco, dirigido pelo meu pai, deu uma trombada na kombi, por traz, que jogou as três crianças lá para frente. Um grande desastre! Eu, para completar o mico do almoço, me mijei todo. Esse foi meu dia de cão!

Saímos todos dos carros, mas ninguém se feriu gravemente, apenas a tia Zeni, esposa do tio Joãozinho, que ao tentar   puxar o freio de mão do fordeco, bateu com a cabeça em algum local. Ganhou só um “galo”. A perícia dos adultos concluiu que as causas do destre foram: a imperícia do motorista e problemas mecânicos do fordeco, que para o freio “pegar” era necessário bombear o pedal várias vezes, o que não foi feito… Um carro moderno, provavelmente de 1932.

Há três anos, retornei à fazenda de Rosal, para novamente comemoramos uma grande festa. A da família do meu avô, Enes Teixeira, que fazemos periodicamente. A Fazenda está mais bela ainda, nas mãos das primas: conservando as características do passado, mas incorporada aos tempos modernos.

Quando me reencontrei com aquela Fazenda a  minha imaginação voou solta, e foi  direto pousar no passado, uma maravilha!

Oscar Rezende

Vitória, dezembro de 2019

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