Com o passar do tempo e a profissão que exerci, por mais de 40 anos, tive a oportunidade de conviver com muita gente. Fiz assim uma estimativa da quantidade delas: foram, em média, 150 alunos por ano, logo devo ter ensinado mais de 6.000 alunos. Uma regra, que já estava escrita, desde sempre, no Brasil, é que a grande maioria desses meus alunos conseguiriam uma ascensão profissional, como de fato conseguiram. Por dois motivos: o primeiro é que as instituições públicas de ensino onde trabalhei são de excelência comprovada (UFV e IFES); o segundo é que a grande maioria dos alunos que conseguiram acessar essas instituições já estava numa posição social privilegiada, não precisavam de quase nada, a não ser deixar que a vida os levasse pelos caminhos da inércia econômica e social.
Vamos a uma outra estimativa grosseira: considerando que passei 60% do meu tempo convivendo com pessoas no ambiente de trabalho, os outros 40% convivi com pessoas fora do ambiente de trabalho, numa regra de três simples, chego ao número de 4.000. A grande maioria dessas pessoas está em posição social e econômica privilegiada, de acordo com o tempo em que vivem. Ou seja: no universo de 10.000 pessoas que convivo, ou convivi, até hoje, a grande maioria está numa posição econômica e social privilegiada. A razão disso é que nós, os privilegiados da nação, nos mantivemos na posição econômica e social em que sempre estivemos, e sem grandes esforços, pois o Brasil é o penúltimo país do mundo em mobilidade social. Quem está em cima não desce e quem está em baixo não sobe. Essa é a nossa realidade econômica e social.
Conheço exceções! Tenho um amigo aqui em Buenos Aires, Guarapari, por quem nutro grande admiração. O Ademir é dono de um bar que leva o seu nome, e que serve uma galinha caipira de dar água na boca. Ele não veio de uma classe social privilegiada, mas proporciona aos filhos, com muito esforço, uma educação familiar e formal invejável. Perdeu de forma precoce a esposa, consumida por um câncer, mas continuou mantendo a família unida, e os filhos estudando e trabalhando em seu bar. Eles são educados em todos os sentidos da vida! Um faz engenharia, o outro medicina, a filha direito e o caçula está no ensino fundamental, em uma escola rural “Família Agrícola”. Diz que será veterinário! Não tenho dúvidas que será mesmo. Essa admirável família é uma das exceções que justificam a regra, ao caminhar na linha invisível (e impossível) da mobilidade social no Brasil.
Assim, meus amigos, enquanto convivermos com essa situação, e os privilegiados fecharem os olhos e o coração, para o que se passa no palco da realidade brasileira, e ficarem aplaudindo a exclusão social do neoliberalismo como política exitosa, nos aproximamos do inferno das nações. E viva à nossa hipocrisia!
Oscar Rezende
Buenos Aires, janeiro de 2020
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