O Piquenique

Nessas minhas andanças pelo tempo, gosto muito viajar ao passado. Sempre desço na estação infância, pois lá estão muitas coisas e pessoas que não me canso de visitar, necessito de uma infinidade de linhas escritas para conversar com todas  elas.

Das fazendas da minha infância, além é claro da Fazenda Velha, onde vivi os dez primeiros anos da minha vida, guardo três na  memória viva desse tempo: a Fazenda do Limoeiro, do meus Tios João do Enes e Zeni, a Fazenda de Rosal dos meu tios Carlowe e Adair, e da Fazenda da  Boa Esperança (Fazenda do Jacá), dos meus tios Mário e Filhota.  

A fazenda do Limoeiro, que está muito bem cuidada pelo primo Boni, tem presença viva na minha infância e adolescência. Se aquela fazenda fosse fofoqueira, a juventude do meu tempo estava em maus lençóis, pois já fizemos cada festa ali! Lembram disso? Os culpados   fiquem tranquilos, o assunto de hoje não são essas festas, que têm muitas histórias, e que histórias!

Eu e o primo Boni, fomos muito ligados um ao outro na infância e adolescência, sempre estávamos juntos, na Fazenda Velha ou no Limoeiro. Além de primos, seus pais foram meus padrinhos de batismo e muito amigos dos meus pais. Estavam sempre juntos,  se aconselhavam uns com os outros e faziam ponderações sobre vida. Uma das coisas que eu gostava de fazer na Fazenda do Limoeiro era passear de trator. Lá tinha um tratorzinho Ford, provavelmente do final dos anos de 1930 (pois para dar partida era necessário uma manícula), dirigido pelo Manezinho, um faz tudo da Fazenda do Limoeiro.  Quando era necessário buscar capim ou cana para alimentar o gado, eu e Boni sempre íamos juntos. Sentávamo-nos nas    laterais que protegiam as rodas do trator, enquanto o Manezinho sentava-se ao centro, numa cadeirinha, de onde dirigia a gerigonça. De vez em quando, topávamos, pelas estradas, com cachorros bravos, que corriam atrás da gente, querendo, a todo custo, pegar nossas canelas, deixando-nos no “sufoco”. Eles passavam perto das nossas canelas, mas, felizmente, não conseguiam mordê-las.

E o Piquenique, o que tem a ver com isso? Pois é! O Piquenique era um cachorro vira-lata, branco malhado de preto, que infernizava a minha vida lá no Limoeiro. A peste do cachorro não gostava de mim de jeito nenhum. A recíproca era verdadeira, eu também não gostava dele, e com um agravante: borrava de medo daquela fera. O cachorro tinha o costume de ficar deitado no fundo da garagem do trator. Toda vez que eu passava em frente à garagem ele, lá de dentro, rosnava para mim. Eu saia, bem de fininho, com o coração na mão, para não atiçar o bicho e ele me dar um galope. Então, a lei que eu seguia era a seguinte: não brincar em frente à garagem do trator.

Naquela época, estava na moda as espadinhas coloridas, de plástico duro, que a gente brincava de lutar. Se você não fosse esperto para se defender e levasse uma  pancada nas mãos ou nos  braços,  da espada, doía muito e deixava vermelhão.

Numa dessas brincadeiras, estávamos eu, Boni e outros, que não me lembro, correndo pelo terreiro, escondendo uns dos outros, e lutando. Menino não tem jeito, esquece do perigo na primeira oportunidade de brincar. Foi o que me aconteceu! Fui brincar em frente à garagem do trator, correndo e balançando a espada. Não deu outra: o Piquenique nem rosnou para me alertar, já saiu lá de dentro, em disparada, para cima de mim. Foi a luta de Davi contra Golias! Eu era o Davi é claro! O bicho vinha para cima, rosnando e  com os dentes para fora, e eu me defendia com a espadinha, ele recuava e vinha de novo, e eu, sem alternativas, gritava e dava outra espadada. Ficamos assim por uma eternidade, se contarmos o tempo pelo meu pavor, mas, ele não me pegou! Até que o Manezinho saiu correndo, lá do curral, para me acudir. Foi um sufoco!

Vou confessar um pecado para vocês: quando aquele cachorro morreu me senti aliviado, pois ele era o meu “carma”.

Buenos Aires- Guarapari

Janeiro de 2020

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