O ventre da grande mãe

Dando uma olhada despretensiosa no facebook, deparei-me com uma foto da nossa casa em Calçado. Uma casa grande: seis quartos, duas salas, cozinha, dois banheiros, três varandas, construída para abrigar famílias numerosas, como era o costume da época. Hoje, essa casa é uma velha senhora de aproximadamente um século de existência, mas, ainda preserva os seus encantos.  

Dá um trabalho danado para ser cuidada, pois merece atenção quase diária. É um sumidouro, sem fim, de dinheiro! Todo ano tem “vaquinha” dos irmãos. Goteiras que surgem, pois os caminhões, que passam na rua, deslocam as telhas; madeiras que precisam de trocas; paredes que necessitam de pintura, ou seja, ela é uma dama vaidosa!  Apesar da austeridade com que se veste, exige muito carinho e cuidado, pois sabe que é amada, e se aproveita disso para se manter viva.

Ela testemunhou o vai e vem de vidas da nossa família: brincou com nossas crianças e continua brincando com as crianças das nossas crianças, que, igualmente, correm em seu assoalho de madeira peroba. Ela transmite o som da continuidade da vida. Secou, em seu chão, as lágrimas que caíram dos olhos tristes daqueles que foram se despedir das vidas que partiram. A última vida abrigada em seu ventre, e, que se despediu numa triste tarde de novembro, foi a de mamãe, quando, também, foi selado o destino da velha casa.

Encerrados os trâmites do sepultamento de nossa mãe, eu, meu irmão, minhas irmãs, minha companheira, cunhados, sobrinhos e filhos retornamos à velha casa, para o último ritual familiar de despedida da nossa matriarca.  Nos reunimos, para passarmos a primeira noite sem a presença de mamãe entre nós. A pergunta que estava no coração de cada um dos filhos, era sobre o destino da casa: vender ou conservar? Uma vez que todos nós tínhamos a vida conectada a um outro lugar, pois, não morávamos mais em Calçado. Fui o primeiro a manifestar… Ponderei que aquela casa era uma entidade, não só física, mas metafisica, que nos unia como família, pois ali estavam fincadas as nossas raízes, e que ela seria um altar espiritual, para nos comunicarmos com a história de nossas vidas.

Todos concordaram, sem qualquer senão. Hoje, essa velha senhora, exigente de cuidados, nos abriga com alegria. Quando suas janelas são abertas para a entrada do sol, o seu ventre nos recebe com o amor de uma grande mãe.    

Oscar Rezende

Vitória, janeiro de 2020

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