Eu estive no meu velório…

Esse título está intencionalmente no passado, pois falo de um   tempo futuro, que espero esteja muito longe de hoje. A minha irmã Maria das Dores (Dodora), no prefácio do meu próximo livro “ Vida  & Morte  à sombra do Jaspe” , que  está no forno, e deve ser lançado  em abril, diz assim: “A  ficção tem seus encantos: é o espaço dos sonhos, através dos quais se realizam as mais intimas e loucas fantasias. De outra, é nesse mesmo mundo fictício que se podem libertar os instintos humanos, por mais selvagem e perversos que sejam”. Essas palavras são libertadoras, e me deixam à  vontade para  escrever bobagens.

Sempre acreditei que o meu sepultamento seria em Calçado, junto com os meus pais, mas, já estou em dúvida, e com tendências a escolher a capital. Acho o cemitério de Calçado muito silencioso e cheio de mistérios, não vou lá à noite de jeito nenhum! São muitos túmulos antigos, retratos envelhecidos pelo tempo e histórias escabrosas escondidas embaixo das sepulturas…  uma combinação que me deixa assustado. Aqui na grande Vitória, principalmente na  Ponta da Fruta,  tem um cemitério  todo gramado, com sol da manhã e vista para o mar. Questiono a vocês:

— Não é mais agradável ter uma morada eterna nesse local?

Como estou falando em um tempo no futuro, o meu velório já aconteceu, então,  vamos esquecer dessas questões reais  e tratarmos das    metafisicas, que defini  como sendo o que aconteceu no meu velório.

A minha companheira, meus filhos e meus irmãos choraram, mas um choro contido! Ninguém agarrou no  meu caixão e fez escândalo, não querendo deixar que me sepultassem. Eu  já estava velho  e tive a sorte de uma vida longa; além disso, a  minha família é contida nas  emoções, e   não faria qualquer movimento que causasse impacto nos presentes.  Ou seja, foi um enterro normal.  E posso dizer que sem graça! Os meus netos é que exageraram um pouquinho no choro, mas entendi as razões deles… é natural  as crianças e os adolescentes curtirem a morte do avô, assim podem faltar as aulas por alguns dias e chamar   atenção dos presentes.   Mas, quando termina a cerimônia, já estão em forma, e saem a procura dos   amigos, como se nada tivesse acontecido.

Quanto aos amigos, os sentimentos foram variados: os do trabalho fizeram comentários positivos a meu respeito, afirmando que perderam um amigo que vai fazer falta. Exaltaram a característica conciliadora, que diziam ser minha; os outros amigos que me acompanharam pela vida, também fizeram comentários positivos, como é de praxe, pois todo defunto vira gente boa. Mas, lá no fundo da alma, alguns tiveram outros pensamentos, como por exemplo:  esse cara era muito metido e soberbo, e não vai deixar saudade, o que é compreensível. Sou uma pessoa que normalmente me expresso de forma contida, e não demonstro ter um espirito alegre e comunicativo, o que pode deixar   essa impressão.

Voltando ao presente, e antes que me esqueça: se algum amigo, que leu esse texto,  for ao  meu velório, e me encontrar  no caixão  com a boca aberta e o nariz cheio de algodão, pode falar  mal da minha esposa e dos meus filhos, por me exporem à essa situação ridícula, que  serei eternamente grato.

Oscar Rezende

Vitória, fevereiro de 2020

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