A minha ignorância intelectual

Dentre as inúmeras ignorâncias intelectuais que carrego na vida, uma que me acompanhou por um bom tempo foi dizer que não gostava de ler Machado de Assis.  Uma ignorância, quase imperdoável, para quem gosta de ler e escrever. Vou apresentar a minha justificativa! Se quiserem me perdoar pela ignorância vou agradecer, mas se não quiserem, vou agradecer também.

Que minha mãe não me ouça, mas ela tem um pouco ou muita culpa nessa história (essa dúvida fica por conta da falta de um instrumento de medida capaz de dimensionar sua culpa). Quando eu era criança, lá na Fazenda Velha, mamãe comprou a coleção completa dos livros de Machado de Assis. Eram 23 ou 24 volumes, não me lembro ao certo, encadernadas em capa dura e   de cor verde, uma bela encadernação, principalmente para a época, final dos anos de 1950.  Ela tinha o maior orgulho da coleção, pois era fã do bruxo do Cosme Velho; e o seu maior desejo era que  os seus filhos também se apaixonassem pelo seu ídolo.

Eu, com os meus dez ou onze anos, tinha um gosto apurado pela “literatura”: gostava de ler gibis e fotonovelas, principalmente as italianas, que traziam ótimas histórias policiais.  Machado de Assis não tinha a menor chance com essa concorrência!

Para ludibriar mamãe que insistia em me enfiar pela “goela abaixo” Memórias de Brás Cubas, pegava Dom Casmurro, abria o livro,  e enfiava uma revistinha do Tio Patinhas no meio dele. Me sentava na cadeira de balanço e fazia pose de quem estava  encantado com as palavras de  Machado.  

O tempo passou, me esqueci de Machado e fui ler os livros de Cálculo de Kaplan. Mas, o grilo falante do espírito de mamãe nunca parou de buzinar nos meus ouvidos, vai ler Machado de Assis, vai ler Machado de Assis… a insistência foi tanta, que fui obrigado a me render.

Camões! Mesmo sendo uma das minhas ignorâncias intelectuais  não ter lido o que você escreveu, me desculpe, mas você não é páreo parar Machado! O bruxo do Cosme Velho, o genial Machado de Assis, é o maior escritor da língua portuguesa.

Oscar Rezende

Buenos Aires (Guarapari) abril de 2020

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