Mirem-se no exemplo daquelas Mulheres de Antenas, que vivem com suas antenas ligadas para captar os ruídos do amor, do ódio, da tensão e do tesão, que vivem soltos nos ares das cidades.
Nas pequenas cidades do interior quase todos se conhecem pelo nome: do médico ao padre, passando pelo professor, pelo padeiro, pela doceira… e assim por diante. São cidades ricas de personagens fantásticos para os que gostam de contar histórias. Dentre esses personagens os mais folclóricos são as Mulheres de Antenas, que também podem ser do sexo masculino. Não sei se eles ainda existem no interior ou se já foram extintos? Com a chegada das redes sociais, que sabem tudo da nossa vida, e com o nosso consentimento, acredito que perderam a sua função. Nas cidades maiores, as Mulheres de Antenas eram tratadas como celebridades, e com um nome sofisticado: colunistas sociais. Mas hoje já não fazem mais sucesso.
No meu tempo de Calçado as Mulheres de Antenas eram ativas: se postavam nas janelas atentas aos movimentos das ruas (principalmente nos dias de festas), nada passava despercebido pelas suas antenas, sempre ligadas. Eram o terror dos adolescentes, que não tinham sossego para um sarro, fumar umas coisas, tomar uns goles, ou andar de Jipe com o meu querido primo João Bosco (que saudade!). O relatório feito por elas chegava nas casas dos nossos pais antes de nós. E olha que naquele tempo nem telefone havia em Calçado!
Tinham também os assuntos adultos: as bravas Mulheres de Antenas calçadenses, sabiam quem traia quem, quem devia quem, quem dava para quem, os segredos do padre, ou seja, assuntos de gente grande! Nesses casos, os relatórios secretos eram passados ao “pé do ouvido”, utilizando-se de um velho costume: “olha só! Vou te contar um segredo, mas me promete que não conta para ninguém”. Tenho comigo que ainda não nasceu o homem que cumpriu essa promessa!
Conterrâneos e contemporâneos, por favor, não sejam indiscretos, não nomeiem nenhuma das Mulheres de Antenas calçadenses. Se o fizerem vou espalhar por aí a verdade verdadeira: cada um de nós carrega dentro de si uma das Mulheres de Antenas.
Cá entre nós… Quem não gosta de uma fofoquinha que atire a primeira pedra!
Oscar Rezende
Buenos Aires, abril de 2020
Deixe um comentário