No primeiro dia em que Barbosinha foi para Ginásio de Calçado, o carcereiro Tibério se apressou para contar a novidade. Pedro Venâncio cumprira quase um terço da pena de trinta anos a que fora condenado. Ele não via o garoto desde aquele fatídico dia! Só conseguia acompanhar a vida do menino através das informações trazidas por Tibério.
—Veja só, Tibério! Outro dia mesmo ele começou os estudos no grupo escolar Manoel Franco. Já está no Ginásio, e sem nenhuma reprovação! Esse menino vai longe! É capaz de virar doutor, puxou a inteligência da mãe! — Falou Pedro Venâncio, com lágrimas de felicidade e orgulho escorrendo em seu rosto marcado pela varíola.
Do alto da Serra do Sapecado vê-se um grande vale, de um verde exuberante, cercado de um lado por um imenso paredão rochoso, e do outro, por uma encosta coberta por restos de mata atlântica. Serpenteando o cume da encosta foi construída uma estreita estrada de terra, que liga a sede do município de São José do Calçado, ao distrito de São Benedito, ao Arraial do Café e, por fim, ao município de Alegre. No fundo do vale desliza um pequeno córrego de águas límpidas, formando uma paisagem que enche os nossos olhos de beleza.
Desde criança, Pedro Venâncio sonhava em ter um pedaço de terra naquele vale! Foi ele mesmo quem nos contou, logo após realizar o seu sonho. Um dia, apareceu no armazém de café do meu pai e estava muito alegre. Acabara de chegar de São Benedito (em companhia de um tio), tocando uma tropa com mais de vinte mulas, carregadas de sacos de café em grão, para serem pilados e, em seguida, comercializados.
— Hoje estou fazendo a última viagem com o meu tio. Trabalhei duro na lavoura de café dele por muitos anos, até juntar um dinheirinho. Acabei de comprar dois alqueires de terra no vale da Serra do Sapecado! Um pedacinho de terra jeitoso para plantar café, e tem uma nascente de água tão boa que não seca nem no inverno! — Gabou Pedro Venâncio, em voz alta, para que todos que estavam no armazém escutassem.
Dois anos após a compra da terra, a casinha já estava pronta: sala, cozinha grande e dois quartos, tudo feito com muito gosto: — e com estrutura de braúna, para durar um tempo maior do que o meu — dizia ele. O quartinho das necessidades ficava do lado de fora, afastado da casa, perto de uma moita de inhame. Quem o ajudou a levantar a casa foi o seu melhor amigo de infância, o Fortunato dos Anjos. Um homem de cintura fina, pernas grossas, com os músculos dos braços bem cuidados, e ombros largos. O rosto fino e o cabelo preto, estilo índio, lhe davam uma bonita aparência, muito apreciada pelas mocinhas de São Benedito. O único problema de Fortunato era a gagueira, que segundo lhe informaram, herdou do avô. Era um homem de poucas palavras — só falava por muita necessidade, mantendo-se calado na maior parte do tempo. Terminada a construção da casa, Pedro Venâncio o abordou:
— Fica aqui para trabalhar comigo, Fortunato, eu sozinho não dou conta de formar e cuidar da lavoura. Você mora comigo, e ainda lhe dou um quarto da produção de café!
—T-t-tá certo, vo-vo-vou ficar Ve-ve-nâncio! — respondeu, timidamente, Fortunado.
Foi numa festa de maio que Pedro Venâncio conheceu Ritinha. Uma moça de estatura um pouco abaixo do normal, mas com as proporções adequadas. Os cabelos pretos sempre soltos ficavam um pouco abaixo dos ombros. O rosto era bem feito, com as sobrancelhas um pouco mais cheias do que o normal, era uma moça formosa! A paixão começou em uma barraca que vendia maçã do amor, e deu prosseguimento na casinha do vale da Serra do Sapecado, após o casamento.
A presença de Ritinha, deu vida nova a casa! A comida que servia estava sempre quentinha e bem temperada, as roupas bem lavadas e cheirosas. Pedro Venâncio era uma felicidade só — A mulher, além de bonita, era muito prendada.
— Tenho muito que agradecer ao Senhor, por tudo o que me deu na vida. Sou um homem muito feliz — confidenciou Pedro Venâncio ao amigo Fortunato, num fim de tarde fria de outono. Estavam sentados no banco em frente a casa, apreciando a beleza da lua cheia que surgia por detrás do paredão de pedras. Esperavam a janta que Ritinha preparava com tanto zelo.
A primeira vez em que Pedro Venâncio sentiu aquele troço estranho foi num dia abafado e quente de verão, quando ele e Fortunato limpavam os eitos da lavoura de café. Desceram para almoçar, retiraram as suas camisas ensopadas de suor, e foram se lavar na bica que ficava do lado de fora da casa. Ao entrarem na cozinha, Fortunato ainda estava com o peito molhado. Os seus músculos bem formados brilhavam em contato com a água, o que lhe dava a aparência de um homem viril. Pedro Venâncio olhou para o amigo e, em seguida, para Ritinha. Sem nenhum motivo, teve uma sensação estranha… uma sensação que nascia na espinha e subia para a cabeça, incutindo na sua ideia a desconfiança de que Ritinha, lá no fundo dos seus segredos, sentia desejos pelo belo corpo do amigo.
Aquela desconfiança entrou para dentro da sua cabeça, e lá fez a sua morada. Por mais que tentasse se livrar daquele pensamento, não conseguia… A sua vida virou um tormento. Quando Ritinha aparecia com o seu vestido de chita, realçando suas formas. Logo vinha a desconfiança:
— É para seduzir o amigo que ela se veste assim! E ele nem disfarça o seu desejo — pensava Pedro Venâncio, com a cabeça atordoada.
Sem contar pra ninguém as suas angústias, Pedro Venâncio foi cultivando aquele sentimento ruim e evitava ao máximo deixar o amigo sozinho com a mulher. Sempre que precisava ir à rua comprar alguma coisa, levava um deles. E assim foi vivendo… A felicidade que sentia no início do casamento foi se transformando em tormento. Até que, no inverno, veio a boa notícia:
— Venâncio, a minha regra não desce há mais de dois meses, acho que vem neném por ai! — disse Ritinha, abrindo um sorriso de felicidade.
A gravidez da esposa acalmou Pedro Venâncio, que deixou as suas desconfianças de lado, ainda mais após o nascimento de um belo menino. Batizou a criança com o nome de Barbosa, em homenagem ao grande goleiro do Vasco da Gama e da seleção brasileira.
Foi num final de tarde, dia do aniversário de três anos de Barbosinha, que ele resolveu agir: terminados os parabéns e o sopro da velinha, Pedro Venâncio pegou sua cacumbu e foi limpar os pés de vassoura que cresciam em volta da casa.
— Fortunato, Ritinha, vêm aqui…vêm aqui! Olha o tamanho da jararaca que matei no meio dessas vassouras — Chamou Pedro Venâncio, com o tom de voz alto, assustando a esposa e o amigo.
Foram dez pancadas, distribuídas, igualmente, em cada um deles. O primeiro que levou a pancada foi Fortunato, a cacumbu bateu em cheio no lado direito do seu rosto. Em Ritinha, a primeira pancada foi no meio da cabeça, que se abriu até a altura dos olhos. As outras pancadas serviram para que Pedro Venâncio confirmasse o seu trabalho. Os rostos e as cabeças da esposa e do amigo ficaram de tal modo estraçalhados, que nem os caixões foram abertos no velório.
Durante julgamento, Pedro Venâncio só falou uma vez, para responder a uma pergunta do Juiz:
— Sr. Venâncio, qual foi o motivo que o Sr. teve para cometer tal barbaridade?
— Motivo meu, Dr. Juiz! O menino demorou muito a falar. Eu estava até desconfiado que ele era mudo… Só falou pela primeira vez no dia do seu aniversário de três anos. Quando me viu chegando da lavoura, correu ao meu encontro, me abraçou, e falou, com uma vozinha mais linda:
— Pa-pa-pa pai!
Oscar Rezende
Buenos Aires, junho de 2020
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