Observo que alguns amigos da minha geração guardam álbuns de fotografias, e, às vezes, disponibilizam nas redes sociais imagens que retratam, desde a infância, suas vidas. Podemos dizer que ali estão os “retratos das suas vidas”, imagens que se entrelaçam com a suas histórias.
Os estudiosos da psicologia dizem que em nossas vidas precisamos acertar algumas contas com o passado, para continuarmos a nossa caminhada, mantendo a harmonia entre o corpo e a alma. No meu caso, tenho um passivo importante a acertar com o meu passado.
Vou deitar-me num divã e abrir para vocês o meu coração: tenho uma relação conflituosa com o retrato (para os jovens fotografia e para os mais jovens ainda o Self e os seus derivados). Infelizmente, não consegui construir, no sentido literal, “ os retratos da minha vida”.
Começando pelo começo: nunca vi, e provavelmente não existe, um retrato da minha mãe grávida, não tenho nenhuma lembrança minha de antes de nascer. Também não tenho aquele tradicional retrato no colo da avó, todo enrolado em um cueiro e com um capuz amarrado no queixo. Um retrato de bebê gordinho, deitado de bruços, com a cabecinha levantada, e vestindo aquelas roupinhas que não dá para saber se o bebê é do sexo masculino ou feminino? Também não tenho! Retratos de aniversários, quando criança, nem pensar! Pois é, sou um verdadeiro “sem retratos”.
Da infância só tenho três retratos. O mais antigo, eu tinha sete anos. Estava de calção, provavelmente na taioba (sem cuecas), e sem camisa, sentado ao lado de primos e irmãs em um tronco caído de árvore. Estou tão longe no retrato, que nem dá para ver direito o meu rosto. O Segundo, é do casamento da minha irmã mais velha, Ângela, quando eu tinha nove anos. Um retrato jeca de dar dó! A cena é a seguinte: eu, meu irmão e minhas irmãs sentados em um sofá, em fila, ao lado da noiva… para sacanear, no retrato eu apareço com sapatos trocados. Tem também uma foto da minha primeira comunhão, de quando Nossa Senhora de Fátima foi visitar São José do Calçado. Eu estou de pé, na frente da estátua da santa, com os pombinhos brancos (de verdade) pousados aos seus pés. A roupa que eu vestia chamava-se “roupa de pajem de Nossa Senhora”, parecida com roupas de príncipe. Para dizer a verdade, acho esse retrato muito fresco! Mas, pelo menos, vejo a minha cara.
Da adolescência ao início da fase adulta, tenho alguns poucos retratos: da época do Bloco da Solidão, nos carnavais; e aquelas de binóculo, tiradas pelo famoso retratista calçadense, “Depressinha”. Tenho também os retratos três por quatro, que todos vocês da minha geração conhecem. Aliás, sobre o retrato três por quatro vale uma análise psicológica: quando a gente vê um retrato muitas vezes consegue captar nele o estado de espírito do fotografado. Mas, com o retrato três por quatro não acontece. Esses retratos, utilizados em documentos, são sem almas… Eu não me reconheço nesses retratos!
Quando me tronei pai, para tentar me conciliar com o meu passado sem retratos, comprei uma Câmera Olympus, e fotografei a infância e adolescência dos meus filhos. Hoje, vejo como essas fotos são importantes nas suas vidas. Toda vez que eles vão lá em casa e pegam os álbuns de fotografias, montados com tanto carinho pela mãe, fazem saudosas e alegres viagens pela infância e adolescência. Até Manuela, minha neta, que vive em uma era digital, quando vê aquelas fotos amareladas pelo tempo, se encanta; é como se ela abrisse um livro de histórias infantis!
Eu particularmente não gosto muito de ser fotografado. Mesmo nas ocasiões em que a família se junta, apareço pouco nas fotos. Quando começa aquela sessão de fotos, arranjo logo um jeito de sair fora. Não sei se são reminiscências da infância? Mas não me incomodo, pois os “retratos da minha vida” venho retratando no que escrevo… Tenho viajado no meu passado sem a companhia das fotografias, embarcado em uma máquina do tempo movida a memórias e a sonhos.
Oscar Rezende
Buenos Aires, junho de 2020
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