As minhas gerações

Durante a vida, a grande maioria dos homens se relaciona com três gerações. No meu caso particular vou chamar essas gerações de:  geração dos meus pais, a minha geração e a geração dos meus filhos. Para posicionar o leitor na minha linha do tempo, vou considerar o início da geração dos meus pais, a segunda década   do século XX; o da minha geração, o início da década de 1950; e a dos meus filhos, o início da  década de 1980.

Se formos olhar os aspectos sociais e políticos, cada uma dessas gerações tem, na sua história, a marca do seu tempo. A geração dos meus pais viveu um período entre duas grandes tragédias mundiais: a primeira e a segunda guerra. Nesse período os regimes autoritários:  fascismo, nazismo e stalinismo, se tornaram forças políticas importantes no mudo.  Aqui no Brasil, era o início da segunda república, e o país se aproximou dos ideais fascistas, o que ajudou a formatar o pensamento dessa geração. As ideias conservadoras e autoritárias se apoderaram das relações políticas, sociais e familiares. Na política, o patrimonialismo estatal e autoritário, vindo da república velha, continuou dando  o tom; nas relações familiares o homem era quem exercia o papel de chefe de família, o provedor… A esposa, submissa a ele, tinha responsabilidades “menores”: cuidar da casa, do marido e dos filhos. Tudo isso sob a guarda de uma igreja católica conservadora, que se impunha através do pecado e do temor ao diabo.

A minha geração foi influenciada por uma nova visão de mundo, com críticas ao modelo estabelecido pela geração anterior. As artes; as transformações internas da Igreja Católica, com o papado de João XXIII; a luta da mulher por um novo papel social; o movimento Hippie; e a visão política de inclusão social, passaram a ser os grandes catalizadores que deram norte a essa geração. Nas relações familiares, o homem e a mulher se juntaram para exercer um único papel: se tornaram parceiros na educação dos filhos e para  prover a família de recursos financeiro, em condições de “quase” igualdade. O que considero um avanço civilizatório. O que marcou a minha geração aqui no Brasil foi  a liberdade sexual, a crítica social   e o combate à ditadura militar; tendo como seus principais aliados as artes: principalmente  o teatro e a  música, que libertaram  das trevas muitas almas que o regime opressor  havia condenado.

Já a geração dos meus filhos se formou escorada em três pilares:  A tecnologia; a dependência exacerbada ao dinheiro, imposto pela globalização do capitalismo financeiro; e a busca constante pelo prazer. Esses pilares sustentam uma das características marcantes dessa geração, a de submissão ao sistema. Tenho a impressão que ela foi ideologicamente cooptada por um mundo globalizado, parece   que acreditam no modelo individualista e na meritocracia, abandonando a inclusão social com um tema relevante, ao contrário da minha  geração.

Abrindo aqui uma parênteses. Eu tenho um amigo, o Gava, que nos nossos cafés filosóficos, antes das nossas aulas de inglês, fazia uma análise interessante da “nossa geração”: “fomos escravos dos nossos pais e agora somos escravos dos nossos filhos”. Uma análise um tanto pessimista, mas que faz sentido.

Fazendo um exercício de futurologia, baseado no meu olhar para o hoje, acredito que a  geração dos meus netos, que já se vislumbra, herdará muito pouco da minha geração. Da geração dos seus pais, acredito que manterão  dois  pilares: a  tecnologia e a dependência do dinheiro como instrumento de inserção social. Mas, o prazer, me parece que será substituído por um conservadorismo religioso, que se apresenta na  forma de teologia da prosperidade, uma ideologia que me parece contraditória, que forjará  um homem evoluído tecnologicamente, mas retrógrado nas relações  sociais.

Essa   análise, que é muito particular,  me deixa sem  esperança  na   evolução do “ser humano”,  tenho a impressão  que  desviamos do caminho que nos conduz a   evolução intelectual, humana  e social, deixando para trás uma das mais belas definições do homem,   que algumas religiões gostam de pregar: “ a de que fomos criados   à imagem e semelhança de  Deus”.

Oscar Rezende

Buenos Aires, junho de 2020

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