Há tempos a Universidade Federal Viçosa é o destino de muitos calçadenses que têm a oportunidade de fazer um curso superior. Um dos primeiros que por lá estudou, foi o primo mais velho, José Teixeira da Silva, filho dos tios Filhota e Mario Silva. Ele era conhecido na nossa família por Juquíta e, em suas relações mais amplas, por Teixeira. Formou-se em agronomia, em 1953, na antiga Escola Superior de Agricultura e Veterinária (Esav), hoje UFV.
Quando fiz o terceiro ano do ensino médio, no Coluni (Colégio Universitário) e a graduação na UFV, tive alguns contatos com ele, primeiro durante o curso de mestrado em Economia Rural, que fez na UFV, e depois como diretor da ACAR-MG, quando visitava a Universidade para tratar dos convênios entre as duas instituições. Apesar da nossa diferença de idade, sempre que estava em Viçosa e se encontrava comigo, batíamos bons papos, e eu ainda faturava o almoço, num dos restaurantes da cidade. Era um homem culto e inteligente, me dava prazer ouvi-lo.
A partir da década de 1960, aumentou o número estudantes calçadenses em Viçosa, e, na década seguinte foi o maior grupo. Éramos mais de quinze; dos capixabas que lá estudavam, só perdíamos para o grupo de Cacheiro do Itapemirim, os antipáticos moradores da capital secreta do mundo.
O grupo do Alegre era miúdo de dar dó, o que nos fez acolher, em nosso ninho, um alegrense solitário, Paulo Cezar Marques, o Pingote. E olha que não era fácil aceitarmos alguém de fora, éramos um grupo fechado. Só andávamos em bando em Viçosa, principalmente quando descíamos a reta da UFV, aos domingos, para irmos ao cinema, ninguém botava banca com a gente!
Pingote era um jovem bonito, de pele morena, cabelos bem pretos partidos ao meio e cumpridos, estilo daquele tempo. Era um pouquinho baixo, o que compensava com os famosos sapatos cavalo de aço. Chegou devagarinho… primeiro nas peladas que jogávamos na quadra do Colégio de Viçosa, quando ganhou a simpatia dos calçadenses: além de ser bom de bola, era um jovem comunicativo e alegre; e depois, morando nas repúblicas de calçadenses. Ele passou, então, a ser o maior cidadão calçadense do Alegre. Não separava da turma nem nas férias. Ele vinha até Calçado para nos encontrar, ou íamos no Alegre encontrar com ele.
Pingote era um jovem que adorava tomar cerveja e escutar um violão. Sempre que topava com uma roda de viola, empacava. Várias vezes, quando programávamos um destino e ele escutava o som de violão em algum lugar, mudava os planos. O jeito era ficar ali ou abandoná-lo, e continuar sozinho o que havíamos combinado.
Quando comprou um violão e aprendeu a tocar, aí não teve jeito… só dava ele nas rodas de viola em frente ao DCE (Diretório Central dos Estudantes) e nos botecos da cidade. Era um verdadeiro boêmio, mas responsável nos estudos!
Após a formatura, ele veio morar em Vitória, e ficamos um longo tempo sem nos vermos. Até que um belo dia, apareceu em Viçosa e me procurou. Ele e a esposa vieram fazer o Mestrado na UFV, e carregavam juntos dois filhos pequenos. Eu e a minha companheira também tínhamos dois. Foi um período em que tivemos uma agradável convivência familiar. Quase todo final de semana almoçávamos juntos: na minha casa ou na dele, sempre acompanhados da cerveja e do seu inseparável violão.
A nossa amizade, que veio lá da juventude, continuou quando me mudei para Vitória. Ele e a esposa Eugenia foram padrinhos de batismo da minha filha mais nova a Barbara. Mas, os caminhos da vida fizeram com que eles voltassem para o Alegre, o que acabou nos distanciando.
Anos depois, quando me preparava para o trabalho, o celular tocou. Era Álvaro Medina, primo e conterrâneo:
— Oscar, tudo bem? Está de pé?
— Sim.
— Então se senta.
— Sabe quem morreu?
— Claro que não, respondi.
— Pois é, o Pingote morreu!
Foi assim, sem mais nem menos, que perdi um amigo, jovem ainda. Durante parte da minha vida tive a companhia agradável do Paulo Pingote: na juventude, nas belas farras de estudante; e na fase madura, quando as nossas famílias conviveram por um bom tempo.
Enquanto esteve entre nós, Pingote nunca foi um estranho no ninho!
Oscar Rezende
Buenos Aires, junho de 2020
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