Se fizermos um paralelo, a nossa vida é como um ciclo, que se abre em algum momento na linha do tempo e se fecha em um outro momento mais à frente. Nascemos; crescemos; temos filhos, netos, às vezes bisnetos; e por fim encerremos o nosso ciclo de vida. Esse parece ser o destino que a natureza (ou Deus) reserva aos homens. No entanto, nem sempre é assim que o tempo nos conduz! De repente vem o imponderável e desvia a lógica desse ciclo… Por exemplo: os pais enterrarem um filho!
Na minha família, considerando àquela que tem origem nos meus pais, o imponderável já desviou a lógica desse ciclo: a minha irmã mais velha, Ângela, enterrou uma filha. Lembro-me dos últimos momentos da nossa querida Nádia (a sobrinha). Estávamos (os irmãos) ao lado da Ângela, em um quarto de hospital, onde Nádia, já inconsciente e com a respiração lenta, se preparava para nos deixar. O silêncio daquele momento — quando refletimos, no nosso mais profundo íntimo, sobre a vida e a morte — foi rompido por minha irmã Carlota, com uma pergunta prática da vida:
— Ângela, que roupa você trouxe para vestirmos a Nádia, na sua despedida dos amigos e familiares?
Ângela vai até uma bolsa que havia trazido, e tira de lá uma saia branca de lese, que vestida fica um pouco abaixo do joelho, e uma blusa de renda…Uma roupa danada de jeca, e que nada tinha com o estilo da Nádia, uma mulher moderna e despojada.
— Você já imaginou como Nádia se sentiria vestida nessa roupa Ângela? — Perguntou Carlota.
Ângela, diante de uma resignação que mostra a sua grandeza de espirito, de imediato concordou, sugerindo que saíssemos para comprar uma roupa que combinasse com o estilo da filha. Fomos: eu (de motorista), minha companheira, Carlota e Ângela.
Ângela, com lagrimas nos olhos, entrava na loja e solicitava à vendedora que lhe trouxesse uma roupa bonita para uma filha. A vendedora, alegre com a possibilidade de fazer negócio, logo perguntava, é para festa? E quando recebia a resposta da minha irmã: “não é para enterrar a minha filha”, se descontrolava toda. Eu, só de longe, sem dar nenhum palpite, achava cômica a situação, apesar da tristeza do momento.
Para encurtar a conversa, depois de muito visitar lojas, decidiu-se: um bermudão preto, uma blusa rosa e uma echarpe para ser acondicionada em volta do pescoço, roupas que combinavam com o estilo da Nádia.
Dois dias depois, vestida como gostava, a nossa querida Nádia, despediu-se dos amigos e familiares, em uma cerimônia simples, em Bom Jesus do Norte (ES).
Resolvi contar essa história familiar para homenagear uma irmã, que encanta a todos nós, pela pureza de sua alma e o amor que dedica a todos da família. Apesar do drama que a perda da filha representou em sua vida, a altivez com que Ângela aceitou e entendeu o destino que lhe foi reservado, é digna de registro, pois é um exemplo a todos nós que vivemos a sua intimidade.
Apesar do imponderável, que desviou o ciclo da vida da minha irmã, sinto que o seu espírito se purificou um pouco mais, aproximando-se da plenitude da vida.
Oscar Rezende
Buenos Aires, agosto 2020
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