A elegância

Os textos literários  nos dão a liberdade de fugir das formalidades que as definições exigem. Para mim, a elegância está muito além da moda e da estética, ela se apresenta como uma harmonia entre a alma e o corpo, sem a valorização dos estereótipos na  relação do homem com a realidade. Considero  características da elegância: a educação, não necessariamente formal; a reflexão antes de opinar; não falar muito, para que a ansiedade não tome as rédeas da situação;  saber ouvir, não ser o dono dos saberes e das verdades e, principalmente,  ter uma áurea que transmita   confiança e paz.  Conheci   muita gente elegante nessa minha caminhada pelo tempo. Vou dar a identidade de uma delas!

Quando iniciei a minha carreira como servidor público (professor), em  1978, a Ditadura Militar mandava  no país, e os concursos públicos não existiam — a não ser em  um ou outro órgão da administração indireta, como Banco do Brasil, Banco Central e outros. Na universidade,  ainda não havia uma regulamentação para o  concurso público… muitos professores eram escolhidos pelas suas relações pessoais  ou por analise do   histórico escolar da graduação.  Quando fui contratado, como professor,  para dar aulas no  COLUNI (Colégio Universitário), um colégio de ensino médio vinculado à UFV (Universidade Federal de Viçosa),  fui selecionado pele  histórico de aluno da graduação.  

Nesse tempo,  o polvo da ditadura abria os seus tentáculos por todos os órgãos da administração pública. Em geral, os chefes no serviço público eram escolhidos pela competência de ser leal às ideias dos Generais, e, não,  como  representante dos seus pares junto ao poder central. Assim que inicie minha carreira de professor no COLUNI, acreditei que iria encontrar um Diretor com esse perfil, que se achasse superior a mim e a quem deveria obedecer, sem nenhum questionamento. No entanto, para a minha surpresa, encontrei a elegância.

O professor Jafar Untar, foi um dos chefes mais elegantes que tive na minha longa vida de servidor público, ele dirigia o COLUNI com muita sabedoria. Quando precisava aplicar novas diretrizes  se reunia com os professores e escutava a nossa opinião. Mesmo quando necessitava ser enérgico para resolver algum problema, sabia usar a sua elegância. Lembro-me de  uma vez em que estávamos em discórdia dentro do grupo de professores: nos dividimos em dois grupos para dar aulas em dois  cursinhos preparatórios de pré-vestibular em Viscosa (MG). Naquela época dar aulas em cursinho era economicamente vantajoso, e a    concorrência entre eles era  ferrenha e, às vezes, não muito ética.

O Professor Jafar sentido que aquela divisão interna estava interferindo nas relações dentro do COLUNI, o que poderia prejudicar o ensino na instituição, resolveu agir… Reuniu o grupo de professores na reitoria, e, junto com o reitor, apresentou a solução:

— A partir dessa data vocês, professores do COLUNI, passarão a ter dedicação exclusiva, como os professores do ensino superior. Quem não aceitar essa solução, infelizmente vai ter que deixar a instituição.

A solução foi aceita por todos e a paz voltou a reinar entre os professores, pois além de dobrar o nosso salário  passamos a nos dedicar integralmente ao COLUNI.

Outra história que nunca esqueço, e que ocorreu só comigo, foi quando, num surto autoritário, retirei um aluno de sala de aula. Fui relatar a ele o ocorrido, e, na maior calma, me disse:

— Professor, toda vez que a gente retira um aluno da sala de aula, quem perde a razão somos nós, pois não nos faz bem.

Tentei seguir esse conselho por   toda a minha profissional, mesmo perdendo a razão algumas vezes!

O professor Jafar é um personagem muito importante   na história do COLUNI,  um dos responsáveis pela vida da instituição. Quando a UFV decidiu que deveria levar adiante o projeto de manutenção   da instituição e  transformá-la em um colégio de ensino médio, pois aquele formato de terceiro ano cientifico não  era mais permitido; e não  acabar com o colégio,  como defendiam alguns administradores da UFV, o professor Jafar foi uma das vozes que se levantou para a manutenção do   COLUNI como  ele é hoje.

Há tempos não vou a Viçosa e encontro o professor Jafar, mas, com certeza ele continua irradiando a sua elegância.

Oscar Rezende

Vitória, setembro de 2020

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