Mexer no passado

É muito comum a gente escutar que não se deve mexer no passado, como se fosse um alerta de que lá existem coisas ruins. Eu penso o contrário, gosto de revirar o passado… quando encontro algo ruim, aproveito como aprendizado, para não deixar que se repita; já as boas lembranças me trazem saudades deliciosas e acalentam minha alma!

Ontem, vi um post no Facebook do primo Mauro Rezende! Ele revirava documentos que contam a sua história política, que é muito rica e que se confunde com a história do Partido dos Trabalhadores no Espírito Santo. O seu post me fez lembrar de algumas cartas que guardo… não só minhas, mas, também, de outros membros da família, que me foram confiadas. Recentemente, dei uma bisbilhotada nelas e encontrei coisas que considero deliciosas…  vou dividir algumas delas com vocês.  

No final dos anos cinquenta (1957), mamãe mantinha correspondência intensa com um dos seus irmãos, o meu Tio Herculano, que morava no Rio e fazia carreira militar na aeronáutica. Vou repetir exatamente um trecho da carta que mamãe escreveu para ele: “Oscar (meu pai) anda meio decepcionado com o preço do café. Não tem havido prejuízos. Papai chegou essa semana e vai bem. As crianças estão sadias, Maria Carlota está menos feia e já anda”. Pelo visto, a minha irmã Carlota além de ter sido uma criança feia, aos olhos da mãe, ainda era lerda para andar. A contradição é que Carlota se tornou uma mulher muita bonita: era de fechar o comércio na juventude! Em outra carta mamãe declara ao irmão, bem mais novo do que ela, o seu amor materno: “Analisei, observei e concluí que sou a mesma para os meus filhos. E, como tal, sempre considerei-te pois quando reprendo Oscar Luiz (eu) ou lhe ensino qualquer coisa, chamo-o de Herculano. Ocupas o mesmo lugar no meu coração, o que podes duvidar, entretanto é a única verdade”.

Há aproximadamente vinte anos, uma das minhas tias, Catarina, que foi freira e morou em vários cantos desse país, me devolveu as cartas que eu havia lhe escrito, quando ainda era uma criança que mal sabia escrever.  Numa dessas cartas, de maio de 1964, logo após o golpe militar, eu, ainda preocupado com os comunismos no Brasil, escrevi num dos parágrafos da carta: “Peço a senhora que reze para não entrar o comunismo no Brasil, más nós aqui estamos rezando para isso”. Vejam vocês que essa conversa de 1964 é atual, ainda continuam cultivando o fantasma do comunismo que assombrava à minha infância.    Só espero que a história não se repetia, pois, em nome desse fantasma, o Brasil viveu um período de muito ódio e  violência contra os seus filhos que pensavam diferente.    Numa outra carta, eu reclamo com tia Catarina das atitudes do papai. Escrevi o seguinte trecho: “ Papai esta muito bravo com a gente mas aguentamos com pasiencia, e mamãe rir a hora que papai fica nervoso com os nervos a flor da pele, a gente fica tremendo , mas não pode fazer nada porque ele bota um chinelão no nariz da jente para a gente cheirar aquele chinelo fedorento” (sic).

Essas histórias que encontro em minha arca de memórias e que divido com vocês, me fazem muito bem! Além de me motivar a escrever, trazem mais sentido a minha vida. 

Oscar Rezende

Vitória, setembro de 2020

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