A alma do IFES

Está rolando nas redes sociais a homenagem aos cento e onze anos do IFES (Instituto Federal do Espírito Santo), que acontece essa semana. Uma instituição que se confunde com a história da educação no estado. Eu tive a honra de participar, como professor, de mais de um quarto desses cento e onze anos de história: iniciei na antiga ETFES, passei pelo CEFETES e terminei a minha história no IFES.

Ítalo Calvino, em suas andanças pelas cidades, com Marco Polo, em “As Cidades Invisíveis”, e nas ruas de uma cidade com Marcovaldo, em “Marcovaldo ou As estações na cidade”, fala dos espaços físicos com muito lirismo, dando alma às ruas e às cidades por onde os seus personagens viajam nesses dois livros. Eu também gosto de encontrar a alma das coisas! Cheguei na ETFES, vindo de Viçosa, depois de trabalhar por mais de onze anos no COLUNI. Não precisei de um período longo de adaptação, aquele prédio quadrado e feio da Avenida Vitória, logo sorriu para mim, conquistando rapidamente a minha alma… assim me encontrei com a alma do IFES!

Fui muito feliz, profissionalmente e como cidadão, no IFES: fiz muitos amigos, e, enquanto estive lá, participei ativamente da sua história institucional, sejam nos assuntos educacionais, sociais e políticos — isso mesmo, os políticos: uma instituição de ensino não pode se furtar a discutir os problemas do país, e se fechar para os problemas da sociedade. Sempre falei isso com os meus alunos, principalmente os das engenharias, que por uma tradição injustificável, são pouco abertos a discutir os problemas sociais, esquecendo que suas ações como profissionais da engenharia interferem na realidade onde as pessoas vivem.

A minha vida no IFES foi de muito aprendizado e de muita participação política: aprendi a conviver com as divergências sem fazer inimigos. Todos tínhamos um único objetivo: ajudar a construir essa história que é muito rica, e hoje, o orgulho de todos que passaram por lá.

Lembro-me dos diversos embates políticos que participei na instituição. Quando cheguei, vindo da UFV, o momento político era muito rico, estávamos no período final da abertura política, o país se preparava para a primeira eleição presidencial, e a instituição também se democratizava: tivemos a primeira eleição direta para diretor. O nosso grupo político venceu a eleição, surfando na onda da mudança. Mas, a pouca capacidade de fazer articulação e o mau humor característico da esquerda à época, nos levou, a partir de então, a sucessivas derrotas. Eu mesmo fui candidato a Diretor, concorrendo com professor Jadir Pella, atual reitor do IFES. Levei uma surra danada! O Jadir, além de ser um professor comprometido com a história da instituição, é jeitoso politicamente. Apesar dos nossos embates, nunca deixamos de ter uma relação pessoal muito boa. Às vezes brinco com ele e alguns companheiros da minha época, que resistem em se aposentar, que quando morrerem o espírito deles ficará zanzando pelos pátios da instituição. Eu também estava chegando lá, mas resolvi sair fora, para não assombrar ninguém!

Essa pequena passagem histórica da democratização do IFES que cabei de relatar, em que a escolha de diretores dos câmpus e do reitor vem sendo feita pela escolha dos servidores e alunos, foi muito boa para instituição, pois permitiu a participação de todos no seu destino, é só ver como o IFES cresceu e ganhou musculatura nesses anos. O meu temor é que essa democracia interna se deteriore com as novas diretrizes de um governo federal que não entende de educação, e acha que as instituições devam se colocar de joelhos aos desejos do poder central da hora.

O que me fascina no IFES é a sua capacidade de seduzir os seus alunos! Ali dentro todos convivem em harmonia, diferente do que ocorre fora dos seus muros. Os alunos que lá chegam vestem a camisa do IFES. Nessa camisa existe uma marca invisível que envolve a todos: a do compromisso e da responsabilidade. É uma Instituição de portas abertas: recebe adolescentes do ensino médio, jovens universitários, e adultos, já mais idosos, que frequentam os seus cursos do EJA, sem nenhum problema disciplinar ou de outra ordem. Os meus colegas da época da antiga ETFES, vão dizer que é o “Visgo Eteviano” que agarra todos! Pode ser! Para mim é a alma do IFES.

Nesses cento e onze anos de história, gostaria de dar os meus parabéns à Instituição, e dizer o meu muito obrigado à ETFES, ao CEFETES e ao IFES, por vocês terem me abraçado e protegido minha alma por tantos anos!

Oscar Rezende

Vitória, setembro de 2020

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