A bela avenida Dante Micheline é um dos cartões postais de uma das cidades mais charmosas do Brasil, Vitória (ES). A capital capixaba, fincada no solo arenoso de uma pequena ilha, à sombra da lenda de dois montes, Mestre Álvaro e Moxuara, e protegida pelo manto de Nossa Senhora da Penha, enche os olhos daqueles que a visitam: além de ostentar um dos melhores índices de qualidade de vida do país, a cidade é privilegiada pelas belezas naturais, com o sol iluminando à sua alma durante as quatro estações. A famosa avenida Dante Micheline fica à beira do atlântico, onde o barulho das ondas se mistura aos roncos dos potentes motores dos sofisticados carros que desfilam pelo seu asfalto…. não há quem não se encante com a sua opulência, que, por vezes, carrega uma certa soberba, debochando da imensa diferença social que adoece o Brasil.
O escritor colombiano e prêmio Nobel de literatura Gabriel García Márquez afirma que todo mundo tem três vidas: uma vida pública, uma vida privada e uma vida secreta. A avenida Dante Micheline é um dos palcos onde essas três vidas se encontram: durante os dias claros e ensolarados as vidas, públicas e privadas, encenam as suas histórias: nas caminhadas pelo calçadão, nos encontros para um bom papo, nos shows artísticos, ou desfilando em seus carrões. Mas, nas madrugas quentes a avenida se transforma no palco das vidas secretas, que exibem, com abundância, os seus pecados e segredos. O logradouro fica à mercê do seu produto mais apreciado — o sexo! Exposto ao longo de suas calçadas bem cuidadas, peitos e bundas siliconados e sem identidades saltam para fora de pequenos vestidos, e se equilibram em cima de grandes saltos; os músculos também se fazem presentes, brilhando como purpurinas nos tórax sem camisas, apoiados em pernas grossas e bem torneadas, numa postura de quem é dono do prazer.
As vidas secretas são vendidas e compradas na Dante Micheline, mas com histórias opostas. O lado da oferta vem dos bairros pobres, são vidas sem identidades, que estão ali para oferecer os caprichos que o dinheiro pode comprar. Essas vidas secretas vivem uma realidade dura, que para vencerem o sofrimento entregam aquilo que os tornam poderosas, os seus corpos. Quando deixam de ser produtos atrativos, o que sobra é uma vida que já não é mais pública, privada ou secreta. Essas três vidas se unem em uma única: a vida sofrida.
O lado da demanda é diferente. São vidas secretas que portam identidade, poder e carteira cheia de superioridade. Vivem em apartamentos e casas luxuosas margeando o oceano. Desfilam em seus carros poderosos de vidros escuros para esconderem as suas vidas públicas e privadas e satisfazerem as suas vidas secretas. Procuram ao longo da avenida as prezas que satisfaçam os seus mais íntimos desejos.
O comércio do sexo, que rola solto nas madrugadas da avenida Dante Micheline, é um exemplo de como o homem capitalista transformou até a sua vida secreta em mais-valia, em que a primazia do capital sobre o trabalho mostra uma das suas faces mais cruéis, aquela que explora a dignidade da vida humana.
Oscar Rezende
Vitória, outubro de 2020
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