O crocodilo e a orca

Manguinhos é um balneário que fica no município da Serra, ao norte de Vitória, capital capixaba. É uma das praias mais frequentadas pelos habitantes da ilha. Além de ser limpa e de mar calmo, com uma vasta faixa de areia, é ideal para crianças; também muito aprazível para quem deseja um ambiente calmo e sem badalações. Eu fui um frequentador assíduo de Manguinhos quando meus filhos eram crianças e adolescentes. Era onde me  encontrava com   os amigos para um bom papo e cerveja gelada  nos ensolarados finas de semana do verão. Sinto saudades desse tempo!

Mas, o que tem a ver a praia de Manguinhos com esses dois animais que assustam os rios do África e o mar de Norte a Sul do planeta? Pois é… O crocodilo e a orca também assustaram Manguinhos por um tempo: quem os levou até lá fui eu.

Tem um ditado popular que diz assim: “se cunhado fosse uma coisa boa não começava com essa silaba”.  Apesar do ditado, eu  não tenho uma relação conflituosa com a penca de cunhadas e cunhados, muito pelo contrário, somos até amigos, principalmente com Jussara, à minha cunhada em questão.

Jussara —que me proporcionou essa grande alegria na vida — para agradar as duas sobrinhas,  Barbara, minha filha e Darma uma sobrinha, que são da mesma idade e muito amigas, resolveu presenteá-las com os dois monstros das águas: O crocodilo e a orca. As duas primas, então com dez anos, adoraram o presente de Natal. A diversão de verão estava garantida… era só encher as duas imensas boias, e aproveitar para navegar nas ondas calmas do mar de Manguinhos a bordo do crocodilo e da orca.

Tudo muito simples e muito legal, crianças adoram esses bichos! Só com um pequeno detalhe: o responsável por proporcionar a diversão para as   crianças não era a tia que teve a “maravilhosa” ideia de presenteá-las, mas, sim, o pai e o tio, no caso eu, que tinha que  carregar aqueles trastes para Manguinhos durante o verão.

A via-sacra começava já na saída de casa. O meu carro à  época (final dos anos noventa) era um maldito Kadet, que tinha um design  de inclinação acentuada na traseira;   o teto da parte de trás do veículo  era muito baixo: além de não caber as boias cheias o carro ia carregado de crianças, o que me obrigava a  construir uma  logística toda especial: levá-los à  praia  e retornar até um posto de gasolina, que ficava na rodovia,  para encher as  duas boias imensas, que quando cheias  não cabiam na parte de trás do carro, ocupando  todo espaço interior. Para conseguir dirigir, eu ficava imprensado no meio daqueles dois monstros, tendo que colocar a cabeça para fora para enxergar a estrada.  Aquela situação deixava o meu “grau de puto da vida” beirando sete. Mas, o que a gente não faz para deixar uma criança feliz!

O pior ficava reservado para a volta … Quando eu tinha que esvaziar as boias, o meu “grau de puto da vida” chegava ao seu nível máximo. A operação levava em torno de uma hora, pois eu tinha que segurar  as válvulas com dois dedos e montar nos  bichos, pressionando-os, desesperadamente, para que o ar saísse. Os dedos ficavam vermelhos e doloridos; a dor que sentia nos dedos era acompanhada por uma dor de cabeça, agravada pela “bela” serenata de crianças chorando e  reclamando que queriam  ir embora para casa, pois estavam com fome e sede.

O Diabo me atentou várias vezes para que eu, num acesso silencioso de  raiva, furasse as duas boias. Mas, Deus, o protetor das indefesas crianças, não permitiu. Essa, o todo poderoso me deve…  podia ter se juntado ao Diabo e me ajudado a furar as boias, sem remorso!  Graças a Deus sobrevive a esse tempo, só ficou um toquezinho nervoso que sobe por dentro de mim quando vejo essas boias penduradas nas lojas infantis… Me dá uma vontade arranjar um prego e sair, que nem um doido:  gritando e furando todas elas…

Oscar Rezende

Vitória, outubro de 2020

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