Porra Caíze!

Escutei essa expressão por quase cinquenta anos, assim que essa história pegou um atalho e entrou na minha vida.

Porra Caíze, você foi muito babaca quando, por ciúmes, se negou a ser nosso padrinho de casamento, só porque  sua irmã estava grávida. Até seu pai, com aquele jeito casmurro, te repreendeu. Eu sei que você amargou sozinho um puto arrependimento, que tentou se redimir, sendo o primeiro a chegar quando o neném nasceu.

Porra Caíze, aquele show do Barry White, lá no início dos anos oitenta, no Maracanãzinho, sábado à noite, foi massa. Só não foi legal o domingo à tarde, quando te convenci a ir comigo no Maracanã, quase vazio, para assistir um jogo do Botafogo com América, que não saiu do zero a zero.

Porra Caíze, outro dia eu e o Chico fomos caçar rã no Rio Calçado. Escutei um barulho na várzea perto do rio e levantei o foco da lanterna para ver o que era…  você não vai acreditar! Dei de frente com um boi… a cara do bicho era emburrada, ele balançava  a cabeça de um lado para o outro, olhando   direto para  mim.  O Chico, querendo me assustar, gritou lá do outro lado:

— Corre que esse boi te pega, corre logo. Eu, com o meu conhecimento das coisas da roça, gritei para ele:

— Larga de ser bobo Chico, você pensa que eu não sei… boi não pega gente… quem pega é vaca!    

Porra Caíze, na semana passada veio de São Paulo o diretor de uma empresa que represento aqui em Vitória. Fui pegá-lo no aeroporto, no meu corcel 1976, que  tinha acabado sair da oficina com o motor retificado. O carro estava novinho em folha. A viagem até a Samarco, em Guarapari, foi uma beleza, eu nem   escutava o barulho do motor do carro, apesar da minha pequena surdez.  Após comermos uma bela moqueca,  em Meaípe, que me custou o olho da cara, pegamos o carro de volta…  O diretor precisava pegar o voo para   São Paulo antes das cinco.  O jeito foi apertar um pouco mais o pé no acelerador, o tempo estava curto. O corcel voava tranquilo pela estrada. O homem, admirado com a eficiência do carro comentou:

— Nossa! Esse carro seu está muito bom, anda que é uma beleza!

Fiquei tão entusiasmado com aquele elogio que apertei, ainda mais, o pé no acelerador. Quando Passávamos em frente a Ponta da Fruta, senti que o acelerador ficou leve… escutei, em seguida, um estrondo…  e o capô do carro se levantou. Por sorte o freio funcionou e  consegui parara. O motor do carro foi para o saco, e eu paguei o maior mico!

Porra Caíze, estou para fechar um negócio que vai dar uma boa “grana”! Vou resolver à minha vida.

Porra Caíze, essa corda da barraca está soltando e os pingos de chuva estão caindo aqui dentro, vê se amarra ela mais firme!

Porra Caíze, passou uma mulher gostosa aqui na praia, você perdeu!

Porra Caíze, esses meninos estão enchendo o saco!

Porra Caíze, estou escutando tudo, como se fosse uma criança!

Porra Caíze, passa essa bola, você é muito ruim de bola!

Porra Caíze, consegui um local maneiro para passarmos o carnaval em Itaúnas!

Porra Caíze, porra Caíze, …. posso encher folhas e mais folhas de papel com essa expressão, pois foi assim que um grande sonhador se referiu a mim por quase cinquenta anos.

O tempo passou… aos poucos fui deixando de escutar porra Caíze, pois a voz que bradava foi ficando cada vez mais distante, assim como a sua alegria.  Os nossos encontros se tronaram raros, restritos àqueles aniversários chatos de netos, onde só se escuta gritaria de crianças.

Recentemente, fiz um churrasco para a família lá em casa, em Buenos Aires (Guarapari), para comemorar a visita do meu neto Otto, que fui conhecer com quatro meses de idade. Quando ele chegou, em companhia de uma das suas filhas, fui recebê-lo com um abraço e um beijo no rosto. Sorriu para mim de um jeito tímido e distante… seus olhos sem brilho miravam o   horizonte.

Diante daquela cena, só me restou questionar,  gritando lá  no fundo da minha alma:

Porra Carioca! Onde está o  porra Caíze?

Oscar Rezende

Buenos Aires, outubro de 2020

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