Luís e Tenório ainda não haviam completado 20 anos e viram na Guerra uma oportunidade para mudar de vida. Atenderam ao chamado do imperador e se alistaram no programa Voluntários da Pátria. As questões políticas da guerra não lhes interessavam: Luís sonhava em conseguir um título de terra para se tornar fazendeiro e Tenório em receber os documentos que lhe dariam o direito de ser um homem livre. Era 1869, quando os paraguaios já estavam com a resistência minada e a guerra praticamente vencida pelos aliados. Eles foram enviados para Cero Corrá, no território paraguaio, onde o ditador Solano Lopes havia montado à sua resistência. A região era inóspita, com temperaturas extremas. Durante o verão o calor beirava aos 47°C e no inverno caia para -7°C.
No início da noite, acampados em uma trincheira para se protegerem dos possíveis ataques das tropas paraguaias e descansar da batalha da manhã, Tenório e Luís fumavam e conversavam sobre a experiência do primeiro combate do qual participaram. Luís comentou que não havia matado ninguém, pois se posicionara, estrategicamente, na retaguarda, para não ser observado pelos homens. Lamentou a violência do ataque aos soldados paraguaios e das ordens do sargento:
“Aquele sargento baixo e troncudo, com sotaque gaúcho, ordenou que não deixássemos sobreviventes, pois não queria prisioneiros de guerra para não ter que gastar com viveres. Ele mandou atacar os soldados inimigos, corpo a corpo, com a baioneta acoplada à carabina, e em seguida cortar a cabeça deles, para mostrar ao ditador Paraguaio o peso da vingança do Brasil”
Tenório, acostumado com a violência pela sua condição de escravo, também se assustou com a guerra:
“O sargento me enviou para a linha de frente, disse que a vida dos negros valem menos. Fiquei tão assustado que sai atacando tudo que via pela frente. Confesso, Luís! Na minha loucura desvairada sangrei um soldado paraguaio. Estamos no inferno! E esse sargento é o próprio demônio. Quando fui cortar a cabeça do soldado, como ele ordenou, você não imagina o que vi! Era uma criança, de pouco mais de doze anos, a barba era uma pintura feita com carvão, para fingir ser homem. Me senti uma escória! Isso é coisa do demônio, meu amigo”
“Sim, Tenório! De dois demônios! O que manda uma criança para a guerra e o que manda matar uma criança na guerra. Mas, agora não devemos mais lamentar. Estamos aqui e vamos lutar, pois mesmo que os soldados inimigos sejam crianças, se tiverem oportunidade vão nos matar. A guerra motiva o ódio entre os homens”
Após a péssima comida servida à tropa, Tenório e Luís foram dormir. Se juntaram aos outros homens, encostados uns aos outros ao redor do fogo, para amenizar o frio terrível daquela região. Antes do sol nascer o toque de despertar soou… o cozinheiro serviu um café preto, com o gosto da palha mais acentuado que o do pó, um pedaço de carne de sol rançosa, passada na farinha, e uma fatia de pão mofado.
Enquanto tomavam café, o sargento repassava as informações sobre a missão do dia: avançar para uma outra trincheira à frente, e forçar o inimigo a recuar. Essa estratégia vinha sendo bem sucedida, pois nas missões anteriores conseguiram avançar, sem muita resistência, com poucas baixas brasileiras e muitas mortes no combalido exército Paraguaio, formado, em sua maioria, por velhos e crianças.
Mesmo sabendo que não haveria muita resistência o sargento instruía aos homens que avançassem com intensidade, e sem piedade, seguindo a mesma estratégia da batalha anterior. De repente….um clarão… seguido de um estrondo. A bala de canhão caiu bem em cima da mesa improvisada para o rancho. A explosão provocou um deslocamento de ar que espalhou os estilhaços para todos os lados, atingindo os soldados e causando uma carnificina. Eram corpos e pedaços de corpos para todos os lados! O cheiro de carne queimada e os gritos dos feridos transformaram a trincheira em um cenário pavoroso. Luís, afastado do epicentro da explosão, não se feriu, sentiu apenas uma surdez momentânea e um zumbido nos ouvidos.
Em meio a confusão, o sargento ordenava os soldados que avançassem, pouco se importando com os feridos. Luís, perdido no caos, não atendeu. Chamou por Tenório várias vezes, mas não obteve resposta. Desesperado, e já prevendo o pior, caminhou entre os mortos e feridos à procura do amigo. Já estava desistindo, quando viu, sob os escombros, um braço parecido com o de Tenório. Retirou os escombros imaginando encontrar um corpo mutilado. Felizmente estava integro. Aproximou-se do rosto do amigo e observou que ele respirava.
“Tenório, Tenório, fala comigo, você está bem, como está você? Fala comigo, Tenório“
Como não houve resposta, apoiou a cabeça do amigo no colo e derramou a água do cantil em seu rosto. O contato com a água fria fez com que ele despertasse. “Quem está aí? É você Luís? Não estou vendo nada meu Deus! Estou cego, estou cego”
“Sim Tenório, sou eu! Fique calmo, os seus olhos estão sujos de terra, abra-os devagarinho enquanto jogo água”
“As minhas pernas, as minhas pernas, estão doendo muito, não vou suportar, estou morrendo” agonizava Tenório.
Ao retirar o amigo dos escombros, Luís se assustou com o estado da sua perna direita: ela estava queimada e com uma fratura exposta na canela. Os estilhaços da bala de canhão fizeram um estrago!
Enquanto cuidava do amigo, Luís escutou os gritos do sargento:
“Soldado! Soldado! Sai já daí e venha com a tropa, abandone esse homem, não temos como carregar feridos”
“Não vou deixar o meu amigo! Vão vocês! Eu vou ficar” respondeu Luís, aos berros, demonstrando a sua indignação.
“Ninguém virá socorrer vocês! Se ficar você vai morrer de frio e de fome junto com esse negro, que já está praticamente morto. Não sei o que essa gente sem treinamento de guerra veio fazer aqui? O Império está em ruinas, só a república nos salvará” bradou o sargento, batendo-se em retirada.
Luís se viu cercado pela dor! O sofrimento do amigo, dos outros feridos e o cheiro da morte causavam-lhe náuseas e vômitos. Decidiu retirar Tenório daquele local. Com muita dificuldade, arrastou seu corpo até uma moita de arbustos, à beira de um riacho, a cem metros da trincheira, uma distância suficiente para não escutar os gemidos de agonia dos feridos, que morriam lentamente dentro da trincheira. Mesmo não sendo religioso, pediu a Deus que abreviasse o sofrimento daqueles homens, que como ele e Tenório, vieram para a guerra na esperança de se libertarem da miséria.
Deitado sob os arbustos, Tenório gemia, batendo os dentes e balbuciando palavras desconexas da realidade, sinais de que a febre já invadia o seu corpo. A preocupação de Luís era que as feridas de Tenório se infeccionassem e causassem septicemia, levando-o a morte. Após quatro dias de luta para salvar a vida do amigo, sem dormir e quase sem comer, Luís observou que a ferida começava a soltar um líquido amarronzado, que exalava mal cheiro e tinha uma coloração escura, como se fosse uma carne morta. Parecia que o amigo estava apodrecendo em vida. Lavar a ferida não estava resolvendo, precisava ir até a trincheira e tentar encontrar algum medicamento que aliviasse o sofrimento do amigo.
A cena dentro da trincheira era assustadora: os urubus estraçalhavam os corpos dos soldados e o cheiro era insuportável. Uma visão do inferno. Caminhando em meio aos urubus e aos mortos, Luís viu um corpo se mexendo. Era de um soldado que, sem um dos braços, tentava espantar um urubu que lhe arrancava pedaços da perna gangrenada. O rosto do moribundo era de desespero e os seus olhos estavam esbugalhados, como se estivesse enfrentando o demônio. A voz que saia dos seus lábios, em carne viva, era um lamento de dor e muita fraca:
“Soldado, por favor me mate … por favor, acabe com o meu sofrimento”
Assustado, e sem saber o que fazer, Luís permaneceu por algum tempo imóvel, olhando para o homem, enquanto a voz assombrada, repetia:
“Me mate… me mate… por favor”
Com o coração acelerado e a adrenalina a viajar por todo o corpo, Luís resolveu agir: pegou uma carabina, que estava ao alcance, encostou o cano da arma entre os olhos do homem, fechou os olhos e, puxou o gatilho. O estrondo fez subir uma nuvem de urubus.
Sem olhar para trás, segurando a carabina deitada sobre o ombro esquerdo, Luís caminhou em direção ao local onde estava Tenório… um sentimento estranho foi lhe invadindo: o seu corpo agora tinha comando próprio, era dono de uma razão totalmente desconectada da sua alma. Enquanto isso, Tenório ria, chorava, reclamava da dor e relembrava, de forma aleatória, de várias cenas da infância sofrida que eles viveram na corte, sem dar a menor importância para o cano da carabina encostado em sua testa.
Oscar Rezende
Buenos Aires, novembro de 2020
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