O menino tinha um pião, sabia brincar, mas ainda não conseguia trazê-lo rodando à palma da mão, precisava treinar mais. O menino tinha um bilboquê feito com latinha, barbante e um pequeno pedaço de madeira. O menino tinha um carrinho de dar corda, construído com carretel, elástico de dinheiro e pau de picolé. O menino tinha um coleirinho gravatinha, que cantava muito. O menino tinha um casal de pombos, Hércules e Fany, que constituíram família em um ninho na tulha de café. O menino tinha a Campina, uma mistura de vira-lata com pastor alemão, de quem era muito amigo. O menino tinha até um carrinho de boi, feito de lata de sardinha, com rodinhas de mexerica verde, puxado por duas juntas de sabuco. O menino tinha bola de bexiga de porco, que jogava com os amigos num campinho cheio de vassouras… se não ficassem atentos a vassoura cortava entre os dedos, num chute mal dado. Mas, toda essa riqueza ainda não estava completa, sonhava com um cabritinho puxando a carrocinha.
A carrocinha ele já tinha, não era grande coisa, estava abandonada após uma longa jornada, levando latões de leite até o ponto, para serem recolhidos pelo caminhão da cooperativa. As rodas ficaram ovais, mas o menino não era exigente, se virava com ela, mesmo meio capenga.
Quem o ajudou a realizar o sonho do cabritinho foi o “bendito” furúnculo. Dona Neném, benzedeira que conversava com as entidades do além, sabia como ninguém fazer um furúnculo vazar e extrair o carnegão.
O menino sentia uma dor intensa, seus olhos estavam cheios de lagrimas… eram folhas e mais folhas de maravilha, fervidas e colocadas em cima do olho do furúnculo, para provocar o vazamento do pus e espremer o carnegão. O momento decisivo chegara… mais uma espremida forte e o carnegão pulava para fora.
O menino com medo de gritar contraia-se todo, chorava em silêncio… era possível ver que a dor que sentia estava se tornando insuportável. Dona Neném, com pena do seu sofrimento, apontou o dedo para o quintal onde estava amarrada a Famosa, uma cabrita que pastava calmamente, e disse:
— Está vendo a Formosa, ela está prenha, se você aguentar essa última espremida, vou lhe dar uma das crias.
Foi como se o menino tivesse recebido uma anestesia geral, o carnegão pulou para fora, sem um único gemido.
Aqueles três meses foram os mais longos e felizes de sua vida, à medida que o furúnculo secava o menino ia quase todos os dias à casa de Dona Neném, levando fubá misturado com capim picado para a alimentar a Formosa. Observava por horas a cabra, sonhando com o cabritinho puxando a carroça.
Numa manhã fria de junho, lá estavam os dois cabritinhos.
— Escolha o que você quiser— disse Dona Neném.
Não foi difícil… o malhadinho preto e branco, o mais lindo que já vira, agora era seu.
Esperou ansiosamente até que Malhado desmamasse, enquanto construía um pequeno curral embaixo de uma velha escola abandonada, ao lado da sede da fazenda. Malhado foi crescendo… os chifrinhos já começavam a aparecer. Gostava de exibir a sua valentia, brincava alegremente fazendo travessuras e dando cabeçadas no menino, estava quase pronto para a canga.
Numa manhã chuvosa de verão, o menino foi tratar do Malhado… ele não estava lá. “Deve ter fugido” pensou. Procura daqui procura dali, e nada do Malhado… Dois dias depois, o campeiro encontrou manchas de sangue em um cômodo escondido da velha Usina.
Oscar Rezende
Vitória, outono de 2021
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