No verão a fazenda era uma animação só. Os primos e primas da cidade chegavam logo após o ano novo e ocupavam a casa. Mamãe, pacientemente, acolhia todos com muito carinho e o seu habitual bom humor.
A cozinha era o espaço mais animado da casa: o fogão de lenha ficava aceso o dia inteiro, com duas ou três pessoas cuidando das panelas que não saiam do fogo…era muita comida para aplacar a “fome” das crianças e adolescentes. À noite a cozinha se transformava no palco onde mamãe exibia a sua arte: contava, com detalhes, histórias terríveis. Ficávamos ao redor do fogão atentos ao protagonismo das assombrações de suas histórias. O problema após as histórias era dormir… amontoávamos todos num único quarto, formando um exército de medrosos em busca de proteção de um possível ataque dos habitantes do além.
Os primos e primas da cidade tinham pouca intimidade com as coisas da roça… uma simples chuva de verão, com enxurrada, era novidade. Riam, pulavam e escorregava na correnteza de lama. Quando viam os animas e aves machos cobrirem às fêmeas, ficavam rindo e cochichando pelos cantos. Uns bobos! Assim que eu os via.
Os banhos de rio também eram diversão garantida, o local escolhido era um remanso que ficava debaixo de uma grande árvore, carregada de ninho de guachos.
—Só é proibido pular de cabeça, pois pode haver uma pedra ou algum toco de madeira que veio com a correnteza— alertavam meus pais.
Papai e mamãe deixavam a meninada livre e a vontade para explorar a fazenda, a única recomendação era que tomassem cuidado com cachorro doido.
— Se encontrarem com algum cachorro amuado e babando, retornem logo para casa — diziam.
Eu tinha pavor de cachorro zangado, Lica vivia me amedrontando… dizia que os doidos da fazenda foram mordidos por cachorro zangado.
A minha cachorra Campina deu cria, foram cinco filhotes, ficamos com um, os outros doamos. Veludo, era um cachorrinho preto, magro, do rabo cumprido e todo serelepe, um típico vira-lata. Cresceu rápido e bobo, vivia correndo atrás dos carros que passavam em frente à fazenda…Eu não entendia o que ele achava engraçado naquela brincadeira!
Num verão, em que os primos e primas estavam reunidas na fazenda, Veludo apareceu ao redor da casa rosnando, com uma expressão agressiva e olhar estranho. Babava muito, com a língua para fora e os dentes à mostra. Alguém chamou papai… o diagnóstico saiu na hora:
— Raiva! Veludo está com raiva! Vamos ter que sacrificá-lo — sentenciou papai.
A reação da meninada foi de comoção e de pavor. Corremos todos para dentro de casa, fechamos todas as portas e ficamos olhando pela janela que sentença fosse cumprida: papai pegou a espingarda e abateu Veludo com um único tiro. Senti uma tristeza profunda ao ver aquela cena, até hoje ela está viva na minha memória.
No dia seguinte Veludo foi enterrado. Acompanhados dos primos e primas fizemos um enterro digno para o Veludo. O cortejo seguiu com bandeiras de folia de reis, rezas e muito choro.
Oscar Rezende
Vitória, novembro de 2020
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