Inspiração

Ele foi até o armário da sala e pegou o último litro de whisky. Não tinha como comprar mais, o dinheiro que o jornal lhe adiantara havia acabado… fumou, só hoje, trinta cigarros. Eram duas horas da madrugada, e ele continuava em frente à sua Remington 1954, novinha em folha, comprada em dez promissórias. Mas, nada! Faltavam apenas três dias para entregar o conto, que seria publicado na revista de domingo do jornal.

Para escrever precisava que as ideias borbulhassem, que o seu pensamento estivesse livre de interferências e, sobretudo: que se sentisse triste, que não amasse ninguém e que também não fosse amado, dizia que o fracasso era a sua maior fonte de inspiração.

— A felicidade me atrapalha… se estou apaixonado a cabeça perde a sua função, o corpo empodera-se e passa ser o dono das ações… os arrepios da pele, o coração batendo na garganta e o corpo tremendo de gozo, se tornam uma barreira intransponível para que as ideias subam à cabeça, quando me sinto assim, não consigo escrever. Ainda bem que hoje essa não é mais a minha realidade!

A voz que veio do quarto se manifestou… só de ouvir aquela voz a sua respiração acelerava, uma saliva salgada invadia o dorso de sua língua, e o vazio tomava conta da sua alma.

— Já vou, daqui a pouco vou me deitar, preciso terminar esse conto.

— Tem quase uma semana que você está tentando escreve esse maldito conto, e nada. A bebida e o cigarro estão consumindo as suas ideias, e o pior, transformando nossa vida num inferno. Hoje, quando abri o armário da cozinha, estava faltado um monte de coisas. Amanhã vou ter que ir ao mercado e comprar novamente na caderneta. Da última vez o Sr. Manoel reclamou que você ainda não pagou o mês passado, disse que vai cortar o nosso crédito.

— Eu sei, estou tentando publicar um livro de bolso, mas nenhuma editora ainda se interessou. Outros jornais não estão aceitando os meus contos… com o suicídio do presidente, a população está revoltada com a imprensa e as vendas de jornais reduziram, pelo menos é o que dizem — respondeu de forma automática, pois não sentia necessidade de prestar satisfações a ela.

— Por que você não tenta arranjar um emprego de verdade? Vai ser professor! Escrever não enche a barriga de ninguém. Já estamos casados há quinze anos e tudo continua no mesmo, as mesmas desculpas e as promessas de que tudo vai melhorar. Nem televisão ainda conseguimos comprar.

— Tá bom, amanhã vou pensar nisso.

Ele já havia tentado ver o mundo com os olhos da mulher, procurando entender como ele funcionava, mas não encontrou nenhuma razão para continuar. A preocupação dela era ler as revistas Capricho e Fotonovela, escutar rádio o dia inteiro e falar com as vizinhas da vida dos artistas. Nunca leu um livro, nem mesmo Agatha Cristie. Enquanto eram jovens não se importava, afinal ela gostava de sexo, apesar de não ter lhe dado um filho, hoje, nem sexo mais queria. Nada do mundo dela lhe interessava!

Encheu mais um copo de whisky, o gelo havia acabado, mas resolveu bebê-lo assim mesmo. Ligou o rádio… tocava um Blues que ele adorava, a música foi invadindo a sua alma, e fez o seu corpo balançar no ritmo melancólico do Blues. Entrou em um estado de desassossego e nada mais fazia sentido para ele. Vivia da sua inspiração, e ela o havia abandonando quando mais precisava. Não estava feliz, estava triste, por que a inspiração não vinha como antes? O que mais ela queria dele?

Foi até deposito, pegou numa gaveta o punhal que havia herdado do pai, e se dirigiu ao quatro. A mulher ainda estava acorda, com a luz acessa, deitada de barriga para cima lendo a mais recente fotonovela publicada na revista Capricho. Com uma das mãos para trás (a que segurava o punhal), sentou-se na cama ao lado da mulher, que não lhe deu a menor atenção, e continuava com os olhos fixos na revista. Pegou o seu travesseiro de dormir, retirou a revista das mãos da mulher… num movimento rápido e firme, tampou seu rosto com o travesseiro, e cravou-lhe o punhal no lado esquerdo do peito. A rapidez da ação não permitiu qualquer reação, nem mesmo um gemido.

Voltou à sua Remington… outro Blues vindo do rádio invadia a sala… em uma única sentada escreveu o seu melhor conto.

Oscar Rezende

Vitória, dezembro de 2020

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