As redes sociais trouxeram uma nova convivência entre os seres humanos. A quantidade de pessoas com as quais nos relacionamos virtualmente é muito grande, as distancias não mais existem. No entanto, itens fundamentais foram suprimidos dessa relação: o da leitura dos gestos e das expressões, o que os olhos dizem e a entonação da voz, fundamentais para que o relacionamento tenha continuidade, ou não! Estamos na alfabetização da comunicação nesse novo mundo, ainda existem muitos ruídos nela. Quando nos expressamos nas redes sociais não atentamos para alguns cuidados, como se estivéssemos falando para nós mesmos, expondo nossos conceitos e preconceitos no entendimento da vida. As redes mostram muito mais das nossas entranhas do que imaginamos. Eu mesmo falo muito de mim nas crônicas e nas publicações que escrevo, elas refletem a minha relação com o mundo e com as pessoas, desnudam um pouco a minha intimidade. Provavelmente muitos mudaram a opinião que tinham a meu respeito: para um lado ou para outro, o que é mais do que logico, pois o mesmo aconteceu comigo.
Nessas minhas viagens pelo mundo virtual observo que o saudosismo é um dos sentimentos que está sempre presente. As nossas fotos, os textos que escrevemos, ou que compartilhamos, de certo modo estão refletindo um pouco do nosso saudosismo. Vejo esse sentimento, por dois pontos de vista: um positivo e o outro, nem tanto. O que seria da arte se ela não se alimentasse das lembranças do passado? Talvez não tocasse a nossa alma… A poesia, a música e a literatura, entre outras, são manifestações artísticas que se alimentam do passado. Já um outro tipo de saudosismo, aquele que se ancora em ideais, usos e costumes que ficaram no passado, nem sempre são bons conselheiros do presente. Publicações de textos que refletem um saudosismo que nega os avanços civilizatórios, tentando demonstrar que no passado não tínhamos esses “mimimis” de hoje, e que éramos mais felizes e não sabíamos, são constantemente compartilhados.
Um dos textos que anda por aí apresenta uma visão de que o passado era melhor, e não havia essa questão de bullying: tinha o zoiudo, o balofo, o maneta, o veado, o medonho, o baixinho, o beiçudo, o gambá, e por ai vai… Ninguém se importava com esses xingamentos, todos eram felizes. Esse texto demonstra uma incrível falta de sensibilidade e entendimento do que são os sentimentos humanos. Eu mesmo, quando jovem, presenciei esse tipo de bullying, inclusive na família. Essas brincadeiras me incomodavam, ainda não entendia bem o porquê, mas não gostava. Sempre procurava olhar com cuidado as reações daqueles que sofriam essa humilhação pública. Dois sentimentos afloravam, a depender de quem sofria a humilhação: o de ódio, que se manifestava por meio de xingamentos e chamadas para briga; ou o do silêncio, que conduzia a um mergulho solitário nas dores da sua alma.
Caminhando por esse longo tempo que a vida vem me proporcionando, a certeza que tenho é que alguns que passaram por esse tipo de bullying na infância e na adolescência tiveram que fazer um esforço muito grande de autoconhecimento para superar essas marcas. Os outros, os que não conseguiram superar as suas dores, mergulharam numa profunda angústia, uma companheira inseparável.
Esse tipo de saudosismo não é o meu…
Oscar Rezende
Vitória, dezembro de 2020
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