Desde sempre sou fascinado por literatura e cinema. Quem me iniciou na literatura foi minha mãe, contando as histórias maravilhosas que se escondiam nas páginas dos seus livros. Já no cinema, quem me iniciou foi uma entidade física, o Cine São José, um prédio clássico, estilo anos trinta, lá na minha São Jose do Calçado. Aquele prédio não é só um monte de cimento e tijolos (está lá até hoje, mas totalmente desfigurado), ele tem alma, uma alma que por muitos anos fez uma cidade sonhar com as histórias fascinantes projetadas, em preto e branco, na sua tela. Ainda hoje, quando passo em frente ao velho prédio, esses sonhos emergem do fundo da minha alma, em forma de uma sensação inexplicável de saudade.
No fim da adolescência, por imposição de meu pai, fui obrigado a deixar minha cidade e vir para Vitória(ES), estudar e trabalhar. Papai dizia que Calçado estava ficando pequena para mim, e se continuasse na malandragem não daria nada na vida. Naquele tempo, os primeiros sinais da paixão batiam às portas do meu coração, e vir para Vitória tronou-se difícil para mim. Para suportar as saudades e alimentar os meus sonhos, tive bons companheiros na capital: a rádio Cariacica, com suas músicas maravilhosas, e os cinemas.
Cada uma das salas de cinema me alimentava com sonhos diferentes: Se eu quisesse exercitar o meu sonho de homem valente, seguindo o estilo dos velhos heróis dos filmes faroestes, principalmente os italianos, ia ao cine Jandaia, que mais tarde foi demolido, sendo construído no local o cine Paz. Se a opção fosse sonhar com o passado e o futuro, a pedida era o Cine Vitorinha, que passava filmes épicos antigos, como A Bíblia, Ben-Hur e as ficções, estilo Flash Gordon, Mil Légua Submarinas e outros. Os sonhos eróticos ficavam por conta do Santa Cecilia, a sala das pornochanchadas brasileira, tão comuns na minha juventude.
O cine Juparanã, com seu estilo clássico dos anos cinquenta, tinha grandes lustres pendurados no rol de entrada, e uma sala de projeção grande, acompanhando o mesmo estilo. Era um convite aos sonhos de elegância, bom humor e felicidade, forjados no estilo americano dos anos cinquenta e sessenta, para combater os sisudos soviéticos no auge da Guerra Fria. Os filmes que passavam na sala eram estrelados, principalmente, por Doris Day, Rock Hudson, Grace Kelly, Dean Martin, Jarry Lews e Marilyn Moore.
Os três cinemas modernos da capital à época eram: Odeon, Gloria e São Luís. Todos os filmes de sucesso pelo mundo eram exibidos em suas telas. Nesses cinemas tive sonhos tristes com o filme Love Story, sonhos terríveis com o filme o Exorcista, e sonhos de aventura, com o magnífico Lawrence de Arábia.
Devo muito das minhas ilusões ao cinema, tenho por ele, como espaço físico e de projeção de meus sonhos, muita gratidão… quando me sento numa das suas poltronas, consigo viajar por uma realidade onde a minha alma se alimenta de sonhos, que me ajudam a viver outra realidade, a que tenho de me fazer presente.
Oscar Rezende
Buenos Aires, dezembro de 2020
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