Feliz Ano Novo
O céu que cobria as montanhas atrás do Grupo Escolar Manoel Franco se tingiu de vermelho, para dar boas-vindas ao sol que se aproximava. Eu descia a ladeira da Rua Quinze. O meu corpo balançava de um lado para o outro, acompanhando a falta de sintonia das minhas pernas, efeito retardado do excesso de conhaque Dreher, que tomei junto com alguns amigos no reservado do bar de Sr. Carlindo, antes do início do baile.
O crooner do conjunto que animava o baile de réveillon no Montanha Clube cantava Beatles, numa linguagem própria: a letra em inglês era cantada com as palavras pronunciadas em português. O efeito da bebida não permitiu que eu esperasse o fim do baile: tive de ir para casa, enfiar o dedo na goela e vomitar todo o álcool que ainda estava no meu estomago, a única forma de aliviar a sensação de tontura que não permitia que os meus olhos cerrassem para dormir… Assim começou o ano de 1969. Um ano que anunciava grandes mudanças na minha vida: iria trocar o uniforme de cor caqui, do curso ginasial, pelo uniforme de cor azul, do curso científico, um rito de passagem importante na vida dos jovens calçadenses; além disso, os primeiros sinais da paixão batiam à porta do meu coração, me deixando perdido em meio a um turbilhão de emoções.
Eu acreditava que os meus dezesseis anos me elevava a outro status, o de homem adulto… afinal, os sinais já se faziam presentes em meu corpo. A relação com o meu pai é que andava estremecida, os conflitos entre nós se tornaram constantes: ele querendo impor a sua autoridade e eu não querendo aceitar.
As emoções da minha adolescência foram intensificadas por uma situação externa: o início do fim da minha avó. Vovó Lota morava conosco, ela era a filha mais velha dos doze filhos de Coronel Pedro Nolasco Vieira de Rezende (aquele da estátua na praça de São José do Calçado). Vovó, já bem velhinha, sofrera uma isquemia cerebral, e estava totalmente dependente, inclusive com sua cognição comprometida, estava caducando, como dizíamos. O agravamento do seu estado de saúde provocava uma romaria de irmãos, parentes e amigos lá em casa para visitá-la. A casa ficava cheia de gente diuturnamente. Vovó recebia muitas visitas, principalmente das suas irmãs, que vinham de fora e se hospedavam lá em casa. Havia uma delas, que mesmo morando em Calçado, também se hospedava por lá, passando dias em companhia da irmã. Hoje, quando me lembro dessa história, é que entendo a união daqueles irmãos.
Mamãe já demonstrava um certo esgotamento físico e mental com aquela situação. Apesar da ajuda de três auxiliares, não dava conta de gerenciar a casa, trabalhar o dia inteiro, e cuidar dos quatro filhos, sendo três adolescentes, que ainda viviam em Calçado; e sem contar com uma ajuda efetiva de papai, que se dedicava integralmente à mãe.
Neste contexto familiar o ano de 1969 caminhou… foi um ano de libertação para os adolescentes, pois os freios que normalmente controlariam à nossa caminhada, não conseguiram atuar… Eu vivia livre e solto: em companhia da bebida, da paixão, dos banhos de rio, das pescarias, e, principalmente, da sinuca. A escola era apenas uma obrigação chata a ser cumprida, mas sem muita responsabilidade.
O ano novo se tornou velho, vovó faleceu, e a conta chegou para nós: eu e uma irmã ficamos reprovados e a outra de segunda época, mas conseguiu passar raspando. Quando o novo Feliz Ano Novo chegou, mamãe cobrou de meu pai que a atenção agora seria toda para os filhos, já que até então ele dedicara grande parte dela à mãe. Os olhares dos meus pais pousaram sobre os meus ombros e das duas irmãs… Ir a um baile no Montanha Clube, encontrar com os amigos e aproveitar as outras delícias da adolescência, passaram a ser tarefas árduas, só após muita argumentação, apresentando a caderneta do colégio sem uma falta e sem uma nota vermelha. Feliz Ano Novo..
Oscar Rezende
Buenos Aires, janeiro de 2021
Deixe um comentário