Li recentemente um conto de Lima Barreto que se chama A nova Califórnia. O autor descreve, no conto, os mistérios de uma casa na pequena cidade de Tubiacanga, onde morava um homem, também misterioso. A casa e o homem eram motivos de todo tipo de imaginação dos tubiacanguenses, indo de um extremo a outro… Uns diziam que lá vivia um renomado cientista, que fazia experiências que iriam salvar o mundo. Outros, ao contrário, acreditavam que lá vivia alguém que veio para destruir o mundo: o tinhoso. Essa história me fez lembrar de São José do Calçado, minha terra natal, uma pequena cidade do sul capixaba, onde havia, também, uma casa misteriosa. Ela ficava numa ladeira, um pouco acima da Loja do Sr. Daúde, um comerciante Libanês tradicional na cidade.
As lendas são assim: não têm uma origem definida, surgem do nada e vão se espalhando entre as gerações. Foi assim que nasceu a lenda da casa misteriosa de Calçado.
Na minha adolescência, sempre que eu me dirigia ao Ginásio de Calçado e passava em frente à casa, apressava o ritmo dos passos e não fixava o olhar na casa, tinha medo de ver alguma coisa misteriosa que estivesse me observando de lá dentro, pelo vidro da janela. Se fosse noite, e eu estivesse sozinho, não passava em frente à casa de jeito nenhum, dava volta pelo outro lado da praça, afinal, como dizia a minha Mamãe: “quem tem cu tem medo”.
Realmente a casa guardava alguns mistérios: ela parecia estar viva, mas ficava com as portas e janelas sempre cerradas. Os jardins eram bem cuidados, mas não me lembro de ter visto alguém entrando ou saindo da casa. Parecia não haver pessoas que frequentavam a casa. Não sei é só imaginação minha, mas toda a sociedade calçadense tinha um certo receio daquela casa. Até o padre, segundo corria a boca miúda, condenava à sua existência.
Eu e o meu primo João Bosco, que nos deixou precocemente, tínhamos as nossas desconfianças: lá, alguns homens da cidade, que cultuavam o demônio, matavam um bode e o deixavam pendurado de cabeça para baixo num altar… Recolhiam o seu sangue em uma taça de prata e bebiam, num ritual macabro de adoração ao tinhoso.
Na realidade, a casa era a sede da maçonaria na cidade. Como a maçonaria é uma instituição que existe há séculos, e que guarda alguns mistérios, nós calçadenses também construíamos as nossas conjecturas sobre a casa.
Há tempos, quando eu ainda morava em Viçosa (MG), fui convidado para fazer parte da maçonaria, mas declinei do convite, por me considerar ideologicamente muito distante dos seus ideais. A maçonaria, apesar de pregar o não envolvimento político, e a ajuda à sociedade, nunca me seduziu. Não acredito em uma instituição que é formada só por homens, e que na sua maioria são conservadores e professam uma ideologia de direita radical. Eu, particularmente, não sou nem um pouco simpático à maçonaria.
Oscar Rezende
Buenos Aires, fevereiro 2021
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