Uma foto do meu primo Jairo Silva, filho da minha tia mais velha, tia Filhota, sentado numa cadeira ao lado janela catando feijão, publicada no Facebook pelo seu filho Gilberto Silva, é de um lirismo único. Muito pouco do entorno se vê na foto…, mas, para mim, ela abriu um mundo de recordações, que vai muito além da arte, na sua mais singela manifestação, que a foto retrata.
Do lado de fora da janela da foto está a Fazenda do Jacá (assim mamãe a chamava), construída pelo meu avô Enes Teixeira. Na fazenda nasceram e viveram a infância os treze filhos do vovô, sendo que um morreu ainda muito criança. Mamãe, no seu livro de memórias “Uma vida – muitas histórias”, conta das alegrias e das tristezas que habitaram a fazenda durante o período em que a família viveu lá.
Quando crianças, sentados ao redor do fogão de lenha, tomando a gemada que papai fazia nas noites frias de inverno na Fazenda Velha, escutávamos as histórias que mamãe contava sobre a Fazenda do Jacá. A que mais gostava de falar era do presente que o pai lhe dera: ele construiu debaixo da sede da fazenda uma escolinha para mamãe ensinar outras crianças. Recentemente, Gilberto me contou que numa reforma que fizeram, encontraram na parede os restos do quadro negro da escolinha. Provavelmente, a vocação de ensinar de mamãe veio desse tempo!
Durante a infância e a adolescência essa fazenda foi palco de alguns momentos deliciosos de minha vida. Eu e meu primo João Bosco, que infelizmente nos deixou, durante as férias escolares íamos para lá, acompanhando os seus pais. Para mim a fazenda era um mundo encantado. Lembro-me dos banhos de córrego, recebendo na cabeça os jatos da água que girava uma roda grande de madeira, que além mover a pedra do moinho, gerava energia elétrica para a fazenda. Era uma luz fraquinha e instável, mas eu achava o máximo, principalmente quando ao anoitecer íamos ligar o gerador. As pescarias de bagre foram inesquecíveis: assim que terminava a chuva das tardes de verão, corríamos para a beira do córrego para fisgar o peixe. Não é história de pescador não, mas pegávamos muitos. A tia Filhota até fritava os peixes para gente, mas tínhamos que limpar tudo.
Outra aventura nossa, e que nos sentíamos como personagens dos velhos filmes faroestes que passavam no Cine São José, era irmos, à noite, para o Bar do Matias, na sede do distrito do Jacá, jogar bilhar. Chegávamos ao bar nos portando como dois forasteiros dos filmes faroestes, sem conversar muito e atentos aos movimentos ao redor. Diziam que o Matias e seus filhos eram “gente brava”, mas nos tratavam sempre com muita atenção e educação.
Tio Mário, esposo da tia filhota, sempre gostou de tropa de mulas. Mesmo não tendo mais serventia naquele tempo, ele ainda mantinha algumas mulas velhas da tropa na fazenda. Eu e João Bosco montávamos àquelas mulas e íamos cavalgar pelas redondezas… subíamos a Serra do Jacá apreciando uma magnifica paisagem: íamos visitar a fazenda do meu tio, lá na Morubeca, ou passear em São Benedito e apreciar de perto a Pedra do Pontão, era uma aventura de dia inteiro, levávamos até comida para a viagem.
Quando ando pelo tempo e por essas histórias, entro em transe! Ufa!
Oscar Rezende
Vitória, fevereiro de 2021
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