O retratista

Normalmente, quando ele me chegava já havia preparado a primeira panelada de pipoca do dia. Me cumprimentava com o seu característico sorriso tímido e preparava o ambiente para o início do trabalho: abria o tripé, encaixava a máquina fotográfica, posicionava a cadeira voltada para o sol, pendurava na árvore um cabide improvisado com paletó, camisa e gravata, para os clientes homens. Para as mulheres: uma blusa preta, com gola e mangas altas. Toninho se vestia com gosto: tinha dois ternos, um branco e outro preto, sempre bem passados, apesar de gastos pelo tempo. Os cabelos, já com alguns sinais da idade, estavam sempre brilhando, efeito do creme que o mantinha penteado para trás. A barba bem-feita destacava um modesto bigode. Antônio era um homem de boa aparência.

Nos últimos tempos, estava animado com o negócio, mostrando-se agradecido ao ex-presidente Getúlio Vargas: “Anísio, nós devemos muito àquele presidente que assinou as leis trabalhistas e criou a carteira de trabalho, todo mundo está tirando retrato. Mas, os ricos desse país aporrinharam tanto o velho, que ele acabou dando um tiro no peito. Só espero que esses miseráveis não acabem com o salário do trabalhador, logo agora que estamos conseguindo ganhar algum dinheiro”. Indiretamente, eu também me beneficiava das leis trabalhistas, pois enquanto os clientes esperavam as fotos vinham comprar pipoca.

Há mais de vinte anos trabalhávamos juntos, ao lado da concha acústica, no Parque Moscoso. Fui eu quem sugeriu que ele se estabelece naquele ponto mais central do parque, afastado dos outros retratistas. Logo ficou conhecido, tornando-se o lambe-lambe mais requisitado do parque. Além do profissionalismo, da educação, da simpatia e sorriso tímido, agradava…, principalmente às mulheres. Mesmo os clientes que não conseguiam deixar a cabeça na posição correta eram tratados com paciência. Ele ia e voltava até a máquina, quantas vezes fossem necessárias, para ajeitar a posição da cabeça do cliente, sem se aborrecer.

Apesar do tempo que convivia com ele, sabia muito pouco sobre sua vida: A única informação que tinha é que morava em Paul, e que vinha para o trabalho de catraia. Algumas vezes ele dormia na pensão onde almoçava e guardava os apetrechos do trabalho, ali perto do parque. Me dizia que ficava com preguiça de esperar na fila da catraia, pois demorava quase uma hora para embarcar. Havia me confidenciado, vagamente, que nascera em São José do Calçado, uma pequena cidade do sul capixaba, mas não falava dela e nem da família.

Era um homem educado, de boa aparência e estável financeiramente, mas não comentava de namorada ou de esposa. Quando eu tocava no assunto, ele arranja uma desculpa qualquer e mudava o rumo da prosa.

Candinha pediu uma pipoca, parecia feliz naquele dia. Vestia uma sai rodada branca e uma blusa rosa. Com os cabelos muito bem arrumados e um batom vermelho, dando vida aos seus lábios e destacando os belos dentes brancos. Candinha trabalhava numa loja de eletrodomésticos ali perto, e quase todo dia, vinha no meio da tarde comprar pipoca. Sem mais nem menos, abriu um sorriso e confessou:

“Anísio, ontem, depois do trabalho, ele me beijou, estou tão feliz que você nem imagina!

Candinha estava apaixonada por Toninho! Ele, sempre muito educado, arranjava um jeito de não dar seguimento aos flertes da moça. Era convidado para ir ao cinema, as brincadeiras dançantes de domingo à tarde no Clube Vitória (ali no parque mesmo), à praia, mas sempre arranja uma desculpa.

Ontem ele chegou diferente, estava com os olhos vermelhos e tristes, parecia ter chorado. O seu rosto carregava um sofrimento além do normal. Perguntei o que havia acontecido, mas só recebi um lacônico: “nada não meu amigo”, acompanhado de um sorriso sem alma. Assim passou o dia: recebendo os clientes, fotografando, revelando as fotografias com todo o cuidado…, mas, a expressão estranha não o deixava. Várias vezes deparei-me com ele olhando para o infinito, com se sua alma se desprendesse do corpo e viajasse sem rumo pelo espaço.

Ao nos despedirmos, no final da tarde, ele me fez uma pergunta: “você esteve com Candinha hoje?”. Respondi que sim, sem dar muita importância à pergunta. Só hoje, triste com o que aconteceu, entendi aquela pergunta.

Quando cheguei, ainda cedo, o português da pensão veio apavorado ao meu encontro: “Seu Anísio! Seu Anísio! Me acompanhe até a pensão, aconteceu uma tragédia, uma tragédia terrível!”.

Subi correndo a escada que levava ao segundo andar. A porta do quarto estava meio aberta. Olhei pela fresta e lá estava a cabeça de Toninho pendida da cama. Estava toda ensanguentada, … na sua mão direita um revolver, pendurado no dedo indicador. Entrei no quarto com coração saindo pela boca. Quando olhei para chão estavam lá: um jornal, com as páginas amareladas pelo tempo, aberto ao meio; e um envelope com uma carta, endereçada à Candinha.

O jornal não era da capital, chamava-se “A Ordem”, e era de São Jose do Calçado. Na página voltada para cima a manchete: “O rapaz que deflorou a filha do fazendeiro, e que foi castrado pelos seus capangas, fugiu hoje do hospital, ninguém sabe do seu paradeiro”.

Naquele dia, a tristeza reinou no Parque Moscoso.

Oscar Rezende

Vitória, fevereiro de 2021

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