Dia destes, quando me dirigia à aula de pilates, encontrei um filhotinho de canário caído na calçada, ele estava vivo, mas bem debilitado. Provavelmente algum fator externo o derrubou do ninho, pois caso contrário ele seria muito bem alimentado e teria uma vida saudável e digna de um canário. Aquela cena mexeu comigo, deixei o que fazia e me dediquei a salvar o filhote. Peguei o bichinho, levei para casa, comprei uma comida especial, papa para filhotes, e uma seringa para alimentar o bichinho. Passei o dia me dedicando à sua vida, alimentando-o de duas em duas horas. Infelizmente ele não resistiu, morreu durante a noite. Passei um dia triste, pensado na morte daquela pequena ave. Em diversas situações eu já me dediquei a ajudar outros animais. Faço isso com os cachorros vadios que aparecem na minha casa de campo. Cuidar dos animais faz bem à minha alma, é uma das formas que tenho de conversar com Deus.
Hoje, fui ao supermercado e encontrei um filhote de gente, também jogado na calçada, acompanhado do seus pais. Eles provavelmente nunca tiveram um ninho para acolhê-los na infância, e, tudo indica, não construirão um ninho para abrigar àquela criança. Vendo a cena, tive uma dúvida de sentimentos: de passar direto e deixar para lá, ou fazer alguma coisa? Dúvida que não tive com o filhotinho de canário. Para confortar um pouco a minha alma, fiz uma pequena compra de mantimentos e entreguei a eles.
Essa história é, também, uma reflexão: por que a solidariedade com a nossa raça não é a mesma? Não sei, cada um que faça a sua reflexão e se entenda consigo. Mas, uma coisa é certa: nós, como sociedade, não deveríamos aceitar, com naturalidade, o que vem acontecendo no Brasil. Não nos esqueçamos que esse país, em termos de solidariedade humana, pode ser considerado de gente do mal, e não de gente do bem. Nós escravizamos e continuamos escravizando e desprezando os nossos semelhantes, simplesmente por uma questão de cor e de situação econômica. Aceitamos, com todo gosto e cumplicidade, o que os poderosos nos vendem como solução para o país, do mesmo modo que os senhores de escravos faziam com os negros: diziam que comer manga com leite matava, para impedir que os negros comessem as mangas e dessem aos seus filhos o leite das vacas.
Quando assisto o que acontece com o país, o meu sentimento é de nojo e de indignação com uma parte sociedade, que em cumplicidade com os discursos dos poderosos, nos jogou nesse abismo. Carrego comigo uma dúvida que tem me feito mal como cidadão. Por que o nosso país chegou a esse ponto? Só não concordo com as repostas que os porta-vozes do poder divulgam para os quatro cantos, e que se multiplicam nas vozes dos seus desatentos ou odiosos admiradores.
Oscar Rezende
Vitória, fevereiro de 2021
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