Os amigo(a)s existem para serem amados. O amor que sentimos por ele(a)s é diferente do que sentimos pelos nossos filhos e pelas companheiras ou companheiros. Esse amor brota num lugar da alma onde vivem a compreensão, a solidariedade, a alegria e o respeito. É um amor gostoso, que carregamos por toda nossa vida!
Em dezembro, mês do meu aniversário, que não pude comemorar devido a pandemia, recebi de um amigo uma carta de amor. Mantive essa carta guardada, por respeito ao autor. Mas, no nosso último encontro, ele me autorizou a divulgá-la. Segue a carta:
Querido tio Caise*
“Já que estamos no período de comemoração do seu aniversário eu gostaria de dizer algumas palavrinhas sobre você!
Voltando ao passado, eu ainda pré-adolescente, me lembro muito bem da sua presença marcante tio Caise. Daquele rapagão alto, bonito, naquela casa cheia de mulheres e de vida, que era, também, a extensão da minha casa e que pude curtir bastante.
Como eu estava sempre com o Paulinho, tanto na carona das aulas particulares que Dona Nádia contratava para a gente, quanto nas brincadeiras do dia a dia, foi assim que tive o privilégio de desfrutar desse convívio maravilhoso com vocês, com sua mãe e com o seu pai. Lembro-me sempre do Sr. Oscar, homem de poucas palavras, bastante sério, mas que me tratava de forma muito singular e com uma atenção especial. Esse e tantos outros momentos vividos com vocês me trazem muitas lembranças boas, uma saudade grande daquele aconchego e dos que se foram…
Pois é tio Caise! Dessa família só poderia sair gente boa né?
Mas vamos lá! Você cresceu ainda mais e foi embora…, mas, sempre por volta de dezembro, próximo ao fim do ano, você chegava de férias. E como Calçado não oferecia para os jovens universitários da época, alguma atividade cultural e esportiva adequada, você se juntava aos atletas do melhor time da cidade, o nosso time é claro, e “tampava” nas peladas. Foi assim, quando você se apresentou pela primeira vez, que fiquei pensando: ‘Como assim? Um “cara” alto, mais velho, meio forte, cheio de vontade e querendo jogar com a gente? Será que ele vai aguentar o tranco das nossas peladas? Logo imaginei, ele vai apelar com a gente e vai dar merda. Esse “cara” vai se estressar…’
Mas foi a partir daí tio Caise, que pude te conhecer melhor. Logo na primeira pelada observei em você algo diferente, uma energia boa, uma forma especial de se comportar e de se apresentar.
Com o passar do tempo, a cada nova peladas fui tendo oportunidade de observar o quanto você era cuidadoso, desportista, elegante e passou a ser muito bom jogar no seu time ou até mesmo contra ele. Você nunca apelava de forma vulgar, não cometia nenhuma violência, mesmo nos momentos de maior disputa. Isso era legal! Percebi também a sua admiração e vibração com as jogadas do seu irmão Paulinho… como era bom presenciar isso. Tudo acontecia de uma forma descontraída, alegre, com gozação geral, ou seja, numa sacanagem do bem. Pois é tio Caise! A sua essência já estava exalando de forma perfumada: nas brincadeiras, nas atitudes e sendo percebida sem muito vento, mostrando quem você era.
E tem mais: talvez você não se lembre, mas está guardado na minha memória o dia 13 de dezembro de 1974, eu tinha treze anos. Dia esse que foi o mais triste da minha vida, em que ouvi, logo pela manhã, o grito de despedida de meu irmão querido Joaquim, de apenas nove anos. Você estava lá tio Caise, na casa da minha avó, onde me recolhi, permanecendo ao meu lado, quase sempre calado, respeitando a minha dor e me protegendo dos pedidos forçosos e insensíveis de alguns que gostariam que eu fosse ver o meu irmão morto, para me despedir dele… mal sabiam eles que eu estava morto também. As minhas lágrimas já haviam secadas, não produziam e nem derramavam mais!
Hoje tio Caise, me sinto como um verdadeiro ganhador do OSCAR! Sabe por que? Porque tenho o privilégio de sua convivência, da sua presença, dos seus ensinamentos, de ler seus livros, suas crônicas e contos que reativam a minha memória, minhas lembranças, e que são como balsamos nesses tempos difíceis.
Você é muito especial, tio Caise! Te agradeço pelos momentos que vivemos e por tudo. Parabéns! E que a felicidade esteja sempre presente na sua vida!”
Danilo**
Oscar Rezende
Buenos Aires, março de 2021
*apelido cunhado por minha irmã Carlota, ainda criança, pois não conseguia pronunciar o meu nome Oscar Luiz.
** Danilo Xavier Moreira, meu conterrâneo, vizinho e amigo, desde sempre.
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