Por mais que alguns possam discordar, no ocidente o processo de envelhecimento corrói, gradualmente, os encantos do homem. Nas sociedades ocidentais capitalistas —não sei como são nas outras sociedades— muitos dos valores do homem estão associados à aparência, à vitalidade, e, principalmente, à sua capacidade produtiva. Aqueles que não são produtivos economicamente se transformam em peso para a sociedade. Reformas e mais reformas da previdência, que retiram benefícios dos mais velhos, são vendidas como solução para o país. Qualquer argumentação em contrário é criticada: não agrada o tal mercado!
O envelhecimento tornou-se um problema econômico para a sociedade ocidental, no entanto, para além dos problemas econômicos, uma outra dimensão do envelhecimento merece uma reflexão, o envelhecimento da nossa alma. Quando a alma envelhece, ela perde, aos poucos, o seu encanto e o seu protagonismo. O envelhecimento da alma talvez seja uma das questões mais emblemáticas da nossa vida; costumo associar o envelhecimento ao outono da vida, a estação mais bela, quando o intenso brilhos do sol não queima a pele, apesar das folhas da vitalidade serem levadas pelo vento. O outono da vida é para ser vivido com o corpo e a alma em harmonia, e que perfumemos a nossa alma com aromas que seduzam o humano que nos habita.
Eu já vivencio o outono! Tomei consciência desse tempo com a aposentadoria, quando me afastei de uma atividade que fez parte da minha vida por mais de quarenta anos. Agora, convivo com um novo tempo, o de não compartilhar mais com os amigos a realidade que o trabalho me impunha. Não nego que ainda sinto um vazio interior, pois a rotina de horários e a dedicação à atividade intelectual de ensinar me ajudavam a manter o cérebro alerta. Mas, o meu outono chegou, e agora é hora de perfumar a minha alma.
O que perfuma a alma depende da sua história de vida! Para alguns, a essência desse perfume é a fé, que busca na crença o encontro com a divindade que lhe traga a harmonia da alma. Como não sou um homem de fé, pelo menos naquilo que apregoam as religiões e os seus livros — não falo isso com soberba, pois respeito muito a fé, só que ela foi caprichosa comigo, não me deu nenhuma chance — tenho procurado perfumar a minha alma com outras essências, aquelas que são divinamente humanas: o livro, a música e a escrita.
O livro me faz viajar por um tempo para além do meu, ele me transporta para realidades onde outras vidas pulsam de emoções dentro mim. As palavras do livro são milagrosas, ajudam curar as doenças da minha alma. A música também é essencial, ela cutuca a minha alma e tira de lá o amor. A música é a essência do amor, sem ela não se ama. Vocês já imaginaram o que seria amar sem a música? Penso que não seria possível! Escrever e outra atividade que perfuma minha alma, a escrita tem o poder de me higienizar, age como se fosse um filtro que remove as impurezas da minha alma. Quando escrevo, abro a luta dos meus demônios versus meus santos, para ver qual deles tem o poder de despejar nas tintas o fel da minha loucura. Essa luta é uma delícia para a alma, libera muita adrenalina, quando um texto termina é como se chegasse ao gozo.
Assim, a minha alma vai envelhecendo, aprendendo a caminhar agarrada ao meu pedacinho maravilhoso de tempo, tentando entender para onde vou e quem sou nesse universo infinito. Vida que segue!
Ufa! Gozei!
Oscar Rezende
Buenos Aires, outono de 2021
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