O enterro do Coronel

Nos primeiros anos da república no Brasil surgiu uma figura muito emblemática, a do Coronel, que esteve presente principalmente no interior do Brasil. Eram grandes fazendeiros que dominavam a política nos municípios, e que se valiam dos votos de cabresto para manter o seu grupo político no poder. No entanto, não eram raras as rixas entre eles.   Em Calçado a presença desses Coronéis foi intensa no início do século XX: Teófilo Caldeirão, Antônio Honório, Sebastião de Almeida, Alfredo Junger e Pedro Nolasco Vieira de Resende foram alguns deles. Eram grandes produtores de Café, e as suas plantações se espalhavam pelos morros do município como jardins.

Mesmo sendo uma cidade pacata, Calçado foi palco de algumas lutas políticas durante esse período, que em muitas vezes resvalava para a violência, e mortes por tocaias eram a mais comuns, quando se queria eliminar um inimigo. Mas, o que movimentava o município  era a morte de um Coronel. Descrevo aqui a morte de um deles, sob olhar de minha mãe, que à época era uma criança de sete anos:

“Havia uma movimentação exagerada na praça. Cavaleiros chegavam apressados e gente vinha de todos os lados. Dentro de casa, mamãe e papai se aprontando, com roupas pretas. Coisa esquisita estava acontecendo, pois na rua as pessoas se encontravam e comentavam o assunto, cujo sentido não havia compreendido ainda. Era a morte do Coronel Pedro Vieira, o qual fora acometido de um enfarto no miocárdio, na Fazenda da Segunda. Os Coronéis encostavam seus cavalos e amarravam-nos à uma grande árvore no meio da praça.

Tudo fazia crer, ser esse velho, muito importante, desde que todo mundo dava grande importância à sua morte. Desde o início da cidade, o povo se acotovelava para pegar a alça do caixão. Achei bonito esse cortejo, apreciando-o da janela da minha casa. Era gente pobre, gente rica e gente de toda parte. Até o pessoal das cidades vizinhas apareceu. De preto vestiam-se os homens e as mulheres. Era um preto elegante, ternos coletes, gravatas, tudo num só requinte.

A chegada na igreja foi muito bonita, havia lindas coroas. Os visitantes eram solícitos e prestavam homenagem à maior figura política de Calçado.

Os comentários do enterro entraram semana adentro, até o dia da missa, em que D, Chiquinha, a viúva, foi muito cumprimentada, recebendo pêsames sentidos de todas as famílias da cidade. E eu estava lá, andando no meio daquela gente e achando tudo muito lindo. Nessa época eu entendia que o sentido da palavra política, que fazia importante a morte de um homem, era uma coisa que dava grandeza às coisas comuns, chegando a transformar enterro em festa.”

Oscar Rezende

Vitória, outono de 2021

Obs. A descrição do enterro do Coronel Pedro Vieira, o da estatua na praça, esta no livro de Nádia Teixeira de Rezende: Uma vida- Muitas histórias

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