Minha mãe foi uma mulher além do seu tempo, não se contentou em ser educada para arranjar um bom partido, casar-se, ter filhos e ser dona de casa, como era comum no seu tempo, resolveu que antes disso queria estudar e se formar professora, a sua grande paixão, depois pensaria nas outras coisas do futuro. Com dezesseis anos resolveu que deveria sair de Calçado para buscar novos conhecimentos; e com a concordância do pai veio para Vitória, estudar no Colégio do Carmo, um famoso colégio de Freiras da capital, para fazer o curso normal e se formar professora. No colégio enfrentou muitos desafios e viveu momentos de alegrias e tristezas, que muito contribuíram para que ela entendesse o significado da vida. Mamãe descreve em seu livro de memorias “Uma vida – muitas histórias” um desse momentos:
“Estamos no dia 5 de setembro de 1936, eram dias, muito agradáveis da primavera, um sol forte e soprava uma brisa perfumada. A algazarra subia na varanda de baixo, como revoada de pombos, as moças brincavam. Umas alunas cantavam outras corriam alegremente para lá e para cá. Quinota e eu, sentadas em uma das portas que dava para a varanda, conversávamos. Era sábado. De repente recebi um recado da Irmã Superiora. Fiquei aflita, assustada, pálida… Mas fui correndo ver o que era. A irmão disse que papai havia telefonado e queria que eu embarcasse, no domingo, dia seguinte; porém ele se esqueceu que não havia trem que era o único meio de transporte de Vitória a Itabapoana. Quis saber o que havia, e ela me disse que mamãe vinha do Rio para casa. Fiquei muito aliviada, e me lembrei da carta que mamãe me escrevera depois do casamento da minha irmã Mesquita. Ela dizia que lamentava muito por eu não ter ido estar com ela no Rio, que estava muito doente, e até ia se operar. Logo após sua carta recebi um telegrama de papai, dizendo que ela estava fora de perigo.
A Irmã Superiora, muito simpática e experiente, chamou-me à sua sala e conseguiu persuadir-me que não havia nada de grave com minha mãe. Voltei para varanda aliviada e continuei a conversar com a amiga, esperando a hora do jantar.
Sentei-me para jantar no lugar de sempre, que era em frente à Maiuce Tanure. Ao olhar para ela, senti um choque imenso, tornando-me pálida. Ouvi, através do olhar de Maiuce em voz abafada, sem ela nada dizer. Só pelo olhar ela transmitiu-me esta mensagem:
— Sua mãe morreu!
Soltei o talher o guardanapo e comecei a chorar convulsivamente. Tive um grande desespero. Ao defrontar-me com a Irmã Superior ela me disse, abraçando-me com muito carinho, que realmente a minha mão havia morrido. Justificou que nada me dissera antes, porque não havia meios de eu viajar para Itabapoana, aonde chegaria do Rio de janeiro o vagão que meu pai havia alugado para trazer o corpo de mamãe.
No dia seguinte viajei para Cachoeiro, segui para Itabapoana e finalmente para Bom Jesus do Norte, onde um carro me esperava para levar para Calçado. A viajem foi muito dolorosa, chorei o tempo todo, o chefe do trem procurava-me toda hora para me consolar e oferecer qualquer alimento.
Ao chegar em Calçado o enterro de mamãe já havia acontecido. Pus-me a chorar a cada encontro com os irmãos. Passei dias dolorosos, até chegar a missa do sétimo dia. No dia seguinte foi o dia de voltar para o colégio. Meu coração parecia de chumbo e pesava no peito ao ter que me despedir de papai e meus irmãos. Retomei minhas atividades no colégio. Como os trabalhos dos estudos foram muitos, logo me reabilitei e continuei vida afora.”
— Essa foi uma das maiores tristezas da minha vida! — nos dizia mamãe!
Oscar Rezende
Vitória, outono de 2021
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