Nas caminhadas que faço pelos cantos da mente, onde jogo minhas lembranças, para depois escarafunchar em busca de inspiração, deparei-me com um livro do Chico Buarque, Leite Derramado. O danado do livro não tem futuro, só passado: são lembranças melancólicas de um velho, que agonizando em um leito de hospital, fala, desatinado, com pessoas reais e imaginárias, sobre o seu passado de glorias e perdas. A leitura desse livro suscitou-me algumas perdas do passado, principalmente do tempo que vivi na Fazenda Velha.
A fazenda ainda está de pé, restou uma velha e malcuidada casa, cuja alma já morreu…, hoje é apenas um esqueleto de tijolos, areia e cimento, que abriga algumas almas que não fazem parte do meu passado. Para mim, tudo o que era vida na Fazenda Velha, já se foi: o pé de fruta-pão, uma fruta que quando sinto o paladar aguça minha memória, com as lembranças da infância; a grande árvore dos ninhos dos guaxes, que faziam a maior algazarra, com seus cantos estridentes nos fins de tarde; a mata que margeava a estrada Calçado-Bom Jesus, que foi assassinada e levou na fumaça de agonia do seu último toco em chamas as assombrações que atormentavam às minhas noites, e que durante o dia se escondiam entre suas grandes árvores… dessas minhas assombrações só restaram as pegadas de saudade que deixaram no meu coração; o chiqueiro dos porcos, os benditos porcos que pisavam nos meus pés descalço, logo cedo, quando tratava deles. Dos porcos preciso falar um pouco mais: nunca quis me apegar à eles, para não aumentar o meu sofrimento, quando, numa madrugada qualquer, era acordado com os seus gritos, ao irem de encontro ao destino que lhes fora reservado: ter o coração perfurado por um punhal na mão firme do seu algoz.
Também já se foram do meu passado o curral, onde vacinava o gado e tirava o leite das vacas; os bichos-de-pé que habitavam a Usina São José, que, num piscar de olhos, viravam batatas imensas, que coçavam e doíam, simultaneamente; a tulha de milho e de café, onde eu criava os meus pombos; o moinho de pedra que moía o milho, que nas mãos da Lica virava o tradicional angu de todos os dias; o frio das manhãs de inverno, difícil de encarar, logo cedo, para ir de encontro às letras e às contas, ensinadas na Escola Singular da Fazenda Velha pela professora e prima Maria Olinda, que também já morreu, levando junto um pouco do meu passado; e o remanso das traíras, onde eu e meu pai pescávamos.
Muitas pessoas também já se foram do meu passado: os meus pais, que enquanto viveram foram a luz do meu futuro… me ensinaram a caminhar firme, desviando dos buracos e das encruzilhadas da vida; os meus tios; os meus avós; e alguns primos, principalmente o primo João Bosco, o mestre da minha juventude, que me ensinou as coisas mundanas e deliciosas da vida.
E assim, vou caminhando nas curvas do tempo, perdendo, aos poucos, o meu passado, mas, acumulando nos cantinhos da mente às minhas lembranças, que, como disse, fico escarafunchando em busca de inspiração para escrever.
Oscar Rezende
Vitória, inverno de 2021
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