Apareceu a Aparecida

Com o fim da República Velha, no início dos anos de 1930, o Brasil passa por uma revolução política, social e de modernização econômica,  que permitiu  o surgimento de uma nova classe de trabalhadores urbanos, dando origem à classe média. Essa nova classe média foi a que mais se beneficiou do processo de modernização do estado, principalmente ao acesso à educação pública, tornando-se detentora de um certo capital cultural, o que lhe permitiu ocupar  os bons empregos que surgiam no estado, na indústria e nos serviços.  Esse acesso ao capital cultural também beneficiou as mulheres da classe média, que se emanciparam e foram participar desse   novo mercado de trabalho, dividindo os cuidados da casa e dos filhos com uma classe de outras mulheres, as exploradas empregadas domésticas. Em sua grande maioria,  as empregadas domésticas são mulheres descendentes de escravos e das classes mais pobres, que foram abandonadas pelo estado, e para sobreviverem se amontoaram    nas periferias e nas   favelas das grandes cidades. Uma realidade que confere ao Brasil o título de um dos países mais desumanos do planeta.  

Eu, como parte dessa classe média, também me beneficiei dessa estrutura injusta da sociedade brasileira, aproveitei dos muitos benefícios que o estado me proporcionou, e sem nenhum esforço, estudei, trabalhei e consegui estabilidade na vida, o que me permite envelhecer com dignidade. Nesse caminhar privilegiado pela vida, contei com a colaboração de muitas pessoas… hoje vou falar de uma delas! A Aparecida.

A Aparecida apareceu na vida de minha família há quase trinta anos, quando minha companheira, que trabalhava no Hospital São Lucas, a conheceu, trabalhando nos serviços gerais do hospital. Aparecida foi, então, convidada por minha companheira a vir trabalhar aqui em casa.  Nessa época, os meus dois filhos eram pré-adolescentes e a filha ainda criança. Precisávamos de uma pessoa para ajudar nos trabalhos domésticos e nos cuidados com os filhos, pois eu e minha companheira tínhamos uma jornada dura de trabalho.  

Nesse tempo de convivência, quase que diária, com Aparecida, testemunhei  os muitos obstáculos que ela teve de ultrapassar, inclusive o mais cruel deles, o da fome, para conseguir viver dignamente numa sociedade que carrega, na alma, o ódio de classe  forjado no nosso passado escravagista. O que Aparecida tem de especial,  o que faz dela uma pessoa que admiro? É como ela forjou a sua alma! Nunca a vi de mal humor e nem reclamando do trabalho ou da vida, está sempre de bom astral.  Ajudou a cuidar dos meus filhos, adolescentes chatos que reclamavam de tudo… e como dizia minha irmã Carlota: “filho adolescente é igual ao nosso peido, só a gente aguenta”.  Além de ser cuidadosa com os meus filhos, Aparecida ainda os aconselhava a se portar diante da vida, durante as refeições que faziam juntos e sem a presença dos pais. Como é comum, nesse Brasil injusto, a história de mulheres que são chefes de família, Aparecida criou sozinha duas filhas, proporcionando a elas educação e condições para que estudassem.  Hoje, ela vive bem, em seu próprio apartamento, que conseguiu adquirir com muito trabalho, tem três netos e uma família constituída.

Ela ainda trabalha aqui em casa, agora praticamente só com a minha presença de aposentado, está a caminho de sua aposentadoria, que se tornou um pouco mais distante com as novas regras perversas desse modelo econômico que vê a vida dos mais velhos como um custo.  Para não dizer que tudo é maravilha, a Aparecida tem defeitos, ela é humana. Um deles é quando a gente deixa alguma coisa espalhada dentre de casa, ela enfia em uma gaveta qualquer, e depois dá o maior trabalho para encontrar, que, às vezes, leva até ano.

 Aparecida é uma vencedora, uma exceção à regra… ela não veio para justificar a meritocracia, mas sim, exaltar o que a sua alma foi capaz de fazer para enfrentar os obstáculos que esse modelo perverso de país lhe deu de “presente”. Que o Deus, em quem ela tanto acredita, lhe dê muita saúde e paz nessa sua rica jornada de vida.

Oscar Rezende

Vitória, inverno de 2021

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