Nas minhas andanças pela vida, que já vai longe, sigo uma teoria: a de que nas famílias existem aqueles que vêm ao mundo para servirem de modelo para os outros integrantes da mesma família. É comum nos seios familiares a existência daquele(a) que incorpora o padrão social de bem-sucedido, o que o(a) torna um exemplo a ser seguido pelos demais membros da família. Por outro lado, existe aquele(a) que destoa desse padrão social, mas que também é exemplo… a não ser seguido! Conheço muitas famílias em que essa dicotomia se faz presente.
Além desses dois modelos dentro das famílias, ainda existe um terceiro, que poucos se dão conta: são aqueles que vieram ao mundo para serem exemplos para a nossa alma. Geralmente são pessoas humildes e silenciosas, que carregam a paz na alma. Para reconhecermos esses seres especiais, precisamos elevar o nosso o espírito aos céus. Pois eles são anjos. Abençoada a família que tem um anjo entre os seus!
A família da minha companheira (considerada a partir dos seus pais) teve a benção de receber um desses anjos: o anjo Rafael! Rafael nasceu com esse dom marcado na alma. Foi uma criança dócil, que nunca criava desavença com os primos e as primas, chatos(as) para dar e vender. Quando era aporrinhado por um deles, Rafael se mantinha em silêncio, seguindo a máxima: “quando um não quer dois não brigam”. Essa sua postura serena desarmava completamente os brigões e os intolerantes. Assim foi crescendo Rafael, sempre presente, mas nem sempre notado, como convém aos anjos, que só se tornam visíveis quando a sua grandeza espiritual é colocada a prova.
O tempo passou, Rafael se formou em tecnologia ambiental, mas não foi trabalhar na profissão, ela era muito humana…, foi exercer, então, o seu papel de anjo! Hoje, toda a sua grandeza espiritual está visível, para quem se dispõe a vê-la. Quando a doença degenerativa do avô (o Parkinson) se manifestou na sua forma mais agressiva, impossibilitando de locomoção um homem que faz da vontade de viver, com intensidade, a sua história; exigindo atenção e cuidados, que em algumas situações são impossíveis de serem atendidos, quem está a seu lado, tentado ajudá-lo? Rafael, o anjo Rafael!
Com sua alma de anjo, Rafael cuida do avô 24 horas por dia, durante sete dias por semana; ele não tem folga! Mesmo que seu corpo esteja descansando ou se divertindo, a sua alma continua ligada à do avô. É cuidador, motorista, companheiro de cachaça, confidente…, ou seja, ele é o instrumento de Deus que permite ao avô continuar escrevendo a sua história de vida. Privilegiado é seu Alberto, que tem a seu lado o anjo Rafael.
Por que contei esta história? Ela mexe um pouco comigo, pois, de certa forma, tem alguma semelhança com a do meu pai. Papai, quando adolescente, estudava no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, queria seguir a profissão dos dois irmãos mais velhos, a medicina. Mas, o Parkinson mudou o rumo da sua vida: ele foi obrigado a abandonar os estudos para cuidar do pai, que sofria dessa terrível doença. Passou toda a sua juventude cuidando do pai! Quando olho o Rafael cuidando do avô, me vem a lembrança do meu pai. Será que ele também foi um anjo, mas que eu não soube reconhecer?
Oscar Rezende
Buenos Aires, primavera de 2021
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