Reencontros nas redes sociais

Essa história aconteceu em Vitória, capital capixaba, mas poderia ter acontecido em qualquer canto desse país.

Paulo estava sentado em frente à TV, não prestava atenção no que acontecia na tela, ele relia o texto que acabara de apresentar:  os evangélicos e a política, em uma “live” que acabara de fazer no seu grupo de análise de conjuntura.  Todos os membros do grupo são originários dos movimentos sociais dos anos 80, ligados à teologia da libertação da igreja católica, a exceção era ele, que nesse tempo se preocupava em criar seus filhos pequenos e cuidar da sua carreira de professor universitário, que havia se iniciado há dois anos, após passar num concurso para uma universidade pública. Paulo não segue qualquer religião, é católico, mas só de nome. Foi apresentado à igreja por um padre que cultuava um Deus que lhe fazia medo…  o jeito foi deixar aquele Deus para lá, e a acreditar na lógica racional da vida e nos mistérios do tempo, o destruidor de todas as coisas.

O sinal sonoro do WhatsApp soou:

“oi, amigo”

“Boa tarde”

“Acredito que vc tenha uma lembrança de mim”

“Eu sou Cezar Augusto um antigo colega seu nos tempos do segundo grau”

“estudamos em Vitória”.

Aquela mensagem transportou Paulo, de imediato, a um passado gostoso, o de adolescente, quando vivia cheio de dúvidas e emoções. Quando   conheceu Cezar Augusto, Paulo logo se identificou com ele, eram parecidos: não faziam o tipo de adolescente, muito comum naquele tempo, que para camuflar às suas dúvidas se escondiam por detrás de uma máscara para fazer  um tipo “machão”:  que gostavam de se  dizer frequentadores de   zona; que faziam bullying com os colegas; que bebiam para ficar de porre; que jogavam charme, muitas vezes fora de contexto, para as garotas;  e que adoravam provocar uma briga, sempre com os   mais fracos, é claro.  Ao contrário, Paulo e Cezar eram tímidos e educados:  respeitavam os professores; gostavam de cinema; iam a shows dos conjuntos da época, foram juntos ao show dos Mutantes; e frequentavam as tardes de domingo dançante no Clube Vitória, no Parque Moscoso. Eram dois rapazes bonitos e as meninas davam “bola” para eles, mas, a timidez às vezes atrapalhava.

   Foram amigos por quase um ano, até que Paulo foi   estudar em outra cidade. Mas o tempo não tem tamanho! E o tempo que conviveram foi o suficiente para que cada um ocupasse um lugar cativo na memória do outro. Paulo até já havia procurado por ele nas redes sociais, mas não o encontrou.

 E a conversa continuou:

“olá, Cezinha (era assim que eu te chamava) como vou me esquecer de vc e da Mariza, lembra dela? Nos três sempre descíamos à noite caminhando pela Jeronimo Monteiro depois da aula. Eu já fui à sua casa em São Mateus”.

“Logico que eu me lembro. Inclusive eu também fui à sua casa em Montanha. Lembra desse dia”.

Paulo contou um pouco da sua história após se separarem, Cezar Augusto também contou a dele, morou em várias cidades, é um microempresário, e teve uma passagem tristes na família, ficou viúvo; trocaram fotos familiares e se despediram.  Hoje moram em  cidades próximas, o que facilita um reencontro para reviverem o tempo da intensa amizade entre eles.

Na manhã seguinte, ainda na cama, Paulo escutou o sinal sonoro do WhatsApp. Era Cezinha:

“Bendita seja a nossa fé, que nos dá asas quando falta o chão. Bom dia!”

No sábado de manhã outra:

“Tenha um feliz sábado e que Deus abençoe seu fim de semana com muita paz no coração”

Mai uma:

“Deus é: a luz que nos guia. O médico que nos cura. O advogado que nos defende. O escudo que nos protege, O pai que nos ama. Deus é tudo para nós.”

E assim vão chegando as mensagens, bonitas e   cheia de amor e de esperança, mesmo para um coração racional como o de Paulo. Mas, o seu medo é que chegue aquela mensagem definitiva:

“Brasil acima de tudo Deus acima de todos”

Com o fundo verde e amarelo.

Oscar Rezende

Vitória, primavera de 2021.

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