Quando o ônibus vermelho e branco da Viação Alvorada abriu a porta, senti o vento frio da madrugada de outubro abraçando o meu corpo aquecido pelas janelas fechadas durante a viagem. Meus olhos, embaçados por uma cerração densa, só enxergavam alguns poucos feixes de luz desfocados que balançavam no ar ao sabor do vento. O cheiro de gordura saturada e de urina entranhada nas paredes, misturados com o odor forte de detergente de péssima qualidade, invadiram minhas narinas. Apesar de acostumado com os cheiros e a paisagem de uma rodoviária de cidade do interior, todo o resto me parecia novo. Do outro lado da rua vinha um barulho desconhecido aos meus ouvidos de dezessete anos. O monstro de ferro, de um só olho na testa que iluminava os dois trilhos paralelos que se encontravam no fim da luz, me carregou no seu último vagão, o único de passageiros, para uma viagem de duas horas, marcadas no meu relógio mondaine, entre Ponte Nova e Viçosa.
Era a primeira vez que eu viajava de trem. Sentamo-nos em um banco de madeira de dois lugares, sem nenhum conforto; a iluminação amarela e fraquinha do teto me transportavam numa viajem no tempo… me senti um personagem dos velhos filmes faroestes que assistia no Cine São José.
O ano era 1971, eu estudava e trabalhava em Vitória, e fui a Viçosa para fazer companhia a uma irmã, cujo noivo estudava na UFV (Universidade Federal de Viçosa).
Embalado no colo da velha locomotiva fui cochilando, cansado da longo viajem que se iniciou há dez horas, em Vitória. Os primeiros sinais do amanhecer iluminaram os velhos casarões, do início do século vinte, que corriam lentamente pela janela do trem, à medida que ele se aproximava da estação. Olhei o mondaine: eram seis horas quando o trem parou. Ao desembarcar, Viçosa não me encantou: as casas tinham a aparência de velhas e malcuidadas; o calçamento das ruas era feito de pedras lascadas, de tamanhos variados, fincadas na terra sem nenhum critério lógico, diferente dos de Calçado, retangulares e uniformes. Fiquei sabendo, depois, que apelido daquele tipo de calçamento era “pé-de-moleque”, uma referência ao delicioso doce de açúcar queimado cravado de amendoins. Também me chamou atenção as pequenas cruzes de madeira, cobertas de flores, penduradas nas portas de entrada das casas, talvez para espantar as assombrações, que pela arquitetura da cidade deviam adorar àquele lugar.
O taxi que nos levou à universidade era um opala novinho. Aliás, o que me chamou a atenção no trajeto de pouco mais de um quilometro, entre a cidade e o campus da universidade, foi a quantidade de carros novos e carros americanos, principalmente os Mustangs, de propriedade dos professores estrangeiros que moravam em uma vila residencial pertencente à UFV.
O campus da universidade encheu de beleza os meus olhos! Contrastando com a cidade, era muito bem cuidado, com imponentes prédios modernos e antigos, convivendo em harmonia: A biblioteca e o refeitório eram modernos e o prédio principal, assim o chamávamos, e o alojamento masculino, separados por um imenso jardim, eram majestosos, construídos no tempo da inauguração da UFV, em 1926, por Artur Bernardes, então presidente da república e natural de Viçosa.
No campus, me senti num mundo totalmente diferente: eram jovens desfilando pelos gramados carregando livros e cadernos entre os braços, com feições que aparentavam felicidade e esperança no futuro, apesar dos sofrimentos que ocorriam nos porões da ditadura, daqueles que ousaram a insurgir contra a falta de liberdade imposta pelo regime, que parecia não existir naquele ambiente. Só mais tarde, no final da década de 70 e início de 80, que os estudantes da UFV acordaram para o que acontecia no país.
Passei o dia na universidade, tentando compreender àquele novo mundo, o mundo do saber: almocei no refeitório; fui conhecer a vaca que tinha uma parte da barriga aberta, onde o coro fora substituído por vidro, e se podia observar o que acontecia no seu interior; visitei um dos primeiros computadores IBM instalados no Brasil, que ocupava uma enorme sala, toda refrigerada, com luzes piscando para onde se olhasse, parecendo coisa de ficção cientifica; e, por fim, passei pelo campus, apreciando as belezas de uma natureza bem cuidada pelo homem.
No início da noite, fui à cidade tomar uma laranjada e comer coxinha, em companhia da minha irmã e do noivo. Como não era conveniente para mim, nem para os eles, que eu continuasse segurando vela, meu cunhado me levou para o alojamento masculino, fui dormir no quarto onde ele morava. Adormeci logo, a viajem e o dia movimentado me deixaram cansado. De madrugada, enrolado nas cobertas, me protegendo do frio viçosense, mesmo na primavera, fui acordado por uma movimentação estranha de vozes agitadas, num prédio de alojamentos vizinho ao que eu estava. De repente, uma voz agoniada sou ao vento:
— Cachaço morreu! Cachaço morreu!
Era um dos formandos daquele ano, cujo apelido era Cachaço. Morreu, ouvi dizer, por excesso de bebida. Uma ironia: Cachaço morreu de cachaça!
Em março de 1972 voltei para Viçosa, para construir parte da minha história. Vivi por lá dezessete anos: estudei, trabalhei, me casei e tive dois filhos.
A UFV foi, sem dúvida, a mais importante fonte do saber de minha vida.
Oscar Rezende
Buenos Aires, verão de 2022
Deixe um comentário